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O TECER dos 10 Anos do Blog TECITURAS

11 abr

por Gisèle Miranda, Lia Mirror & Laila Lizmann

 

O Blog Tecituras nasceu nas paredes de um quarto, gestado e parido. As palavras foram esculpidas, ora na pena, ora com as unhas. O caos, a dor e a “solidão do porvir de poucos” atentou que a “consciência sobrevive a qualquer circunstância”. As incisivas palavras são do artista Gontran Guanaes Netto* (Vera Cruz, São Paulo, Brasil, 1933 – Cachan, França, 2017), amigo, professor e tutor às avessas. Do Sujeito Histórico, Artista Realista Político, Professor da Memória à História.  Gontran Netto deu-nos a honra de sua colaboração no Tecituras com suas obras e suas reflexões em manuscritos e interferências.

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A homenagem dos 10 anos do Tecituras vem de um conteúdo Histórico, Artístico, Crítico e Político. De conteúdo imaterial, inquietações do pensamento à escrita com o objetivo de compartilhar conhecimentos, experienciar e zelar pelos bens culturais, com colaboradores – com ou sem vínculos acadêmicos e com uma bagagem de textos não perecíveis ao tempo, atualizados, conscienciosos de sua necessidade, por isso, nossa justa homenagem a Gontran Guanaes Netto! Há inúmeros textos sobre sua arte, sua luta, além de tutelar um pequeno espaço tecido há 10 anos.

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O conteúdo artístico faz uma grande diferença. O conteúdo crítico é uma filtro necessário diante da abundância do vazio, da educação cara e fria, frente a educação da exclusão. Dessa homenagem, tecemos reverência a missão ou o ofício dos professores em situações de falta d´água, restrições, endividamento, aluguel atrasado, ajuda de familiares e amigos. Inevitavelmente, ratificar a data de 29 de abril de 2015, o cenário ápice da violência na Educação brasileira, ao Brasil atual, machista a misógino, ignorante que enaltece a intervenção militar quando desconhece a violência histórica, cuspiu na História e na Educação. Após cinco anos dessa violência, e de tantas não sanadas, vem a público, o Ministro da Educação (des) mascarado na mesa de reunião do horror (!), entre os seus pares. (**)

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Nosso Brasil tão diverso, nascido de um histórico de pura violência, dos séculos de escravidão, da exclusão, dos preconceitos, Esses séculos não foram sanados, tão pouco, os 21 anos de violência do Estado Militar Brasileiro, porque não há Consciência Histórica.
As ditaduras devastaram toda a América Latina. Torturaram violentaram, reprimiram, subornaram, difamaram e mataram. Toda essa herança resiste e, que cada vez mais, estratifica nos professores, na moral da violência e da “sub -missão”  material, nos salários, na ausência dos livros, das leituras, do tempo, das escritas, numa “missão impossível”.
Entre a teoria, o discurso frio e confortável da boa escrita (e cara educação) há o extremo da prática, do discurso de luta, nada confortável. Entre as fases antagônicas existem mais falas sujas, oportunas e arrogantes. Sem dúvida, a figura opressora tem cúmplices entre os próprios oprimidos. (1)

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Entre os traumas, há sobreviventes na floresta dos homens e mulheres livros (2), independente da indexação, do conforto, da assepsia, da insensibilidade, do apodrecimento, dos muros, onde os discursos, principalmente econômicos, falam mais alto, não por acidente, mas por natureza. (3)
Os professores que apanharam em 2015, os que mais adoecem a olhos (não) vistos nos representaram no front, e hoje, unidos a população em geral, principalmente com os mais pobres para aplaudir os profissionais da área médica e de serviços essenciais à beira do precipício Humano e Político, na pandemia Covid-19.

Já dizia nosso querido Gontran Guanaes Netto: Antigo combatente, jamais!

Então, Antigas combatentes, Jamais! & Marielle, presente! João Pedro, presente!

 

 

(*) Sobre O Artista GONTRAN GUANAES NETTO

(**) https://www.youtube.com/watch?v=cIWzeiEMpko; https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/05/25/weintraub-diz-que-desabafo-em-reuniao-nao-foi-pensado-e-e-sincero-e-educado.htm

(1)  BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo Vol 2: A Experiência Vivida, Difusão Européia do Livro, 1967. “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.

(2) homens e mulheres livros e livres. t tecituras.wordpress.com/2010/03/11/serie-retecituras-iii-fogo-451-aos-doutores-de-historia/

(3)  DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Ed. 34, 2010, p. 221. 

 

Reminiscências & Reflexões por Gontran Netto (parte I)

5 nov

Por Gontran Guanaes Netto (*)


A dinâmica da existência do homem se caracteriza pela sua capacidade de interiorizar e exteriorizar experiências.

É através da representação deixada pelo homem, desde seus primórdios, que nos permite ter uma noção aproximada do humano em sua dimensão mais abrangente.

Isto nos possibilita especular sobre as motivações e as constantes através dos tempos em etnias marcadamente diferenciadas e evidenciadas pelas representações nas cavernas. Frutos dessas pinturas, observa-se uma grande preocupação Realista, principalmente em Lascoux e Altamira.

Por outro lado, vemos vestígios em lugares e tempos  – da preocupação Simbólica. Portanto podemos dizer que a representação dita artística está presente na atividade humana. E, de acordo com as formas de organização social ela preenche funções diferenciadas. Ela serve para validar crenças, criar expectativas, coadjuvar estruturas sociais.

Ao observarmos a extensão histórica da cultura em geral, detectamos uma acentuada preocupação humanista em dois períodos: o Clássico Grego e a Renascença Italiana, que poderíamos resumir como um Idealismo Realizado. Isto se materializado na preocupação de ver a representação a partir de cânones de beleza estética.

Michelangelo transformou-se num gênio; fragmentam-se as ideologias do corpo social e os conhecimentos – que deram curso às especificidades científicas.

Suave e sem formas angulares convencionou-se ser o adolescente, a forma humana ideal de beleza. Os adolescentes de Caravaggio são as representações mais perfeitas dessa forma de Realismo.

 

Caravaggio, (Milão, Itália, 1571- Porto Ercole, Itália, 1610). Amor Vincit Omnia, 1601-1602. óleo sobre tela 156 x 113 cm. Gemäldegalerie, Berlim.

 

Buscando formas diferentes de se expressar, Leonardo Da Vinci gostava de desenhar figuras deformadas ou feias como forma de beleza.

Portanto podemos dizer que nesta busca incessante de uma beleza hipoteticamente inatingível ultrapassa os limites do real, postura que perdurou até o período Romântico em variantes, donde se preconizou a exacerbada forma dos antigos conceitos dados aos sentimentos, a emoção.

O Romantismo determina o fim dos limites estabelecidos pelos cânones, antevendo nossos rumos. É nesse estado de espírito que a história se reescreve, onde os valores assumem colorações especiais.

Com isso, outras formas de representações se abrem, e se apresentam como opções diametralmente opostas, configurando um Romantismo Impressionista ou Expressionista.

 

Anita Malfatti (São Paulo, SP, 1889-Idem, 1964), a boba, 1915-16. Óleo s/ tela (61×50,5). Col. Museu de Arte Contemporânea/ MAC/USP.

 

Os criadores continuam buscando novas técnicas para obterem a representação desejada.  Os antigos valores centrais são anarquizados. Vemos então, tendências e escolas se distanciarem umas das outras.

Surgem as novas representações visuais e nesse contexto estão a fotografia e o cinema – que por sua vez, interconectam experiências e linguagens.

Desta fragmentação decorre uma diluição da antiga presença humanista, que paulatinamente perde espaço para uma presença virtual. Os sistemas globalizados determinam formas de representações ostensivas e com inevitável saturação visual.

As dúvidas existenciais cedem lugar às certezas visuais. Vêm-se empobrecidos os antigos meios de questionamentos e cedendo lugares a caminhos programados. A arte visual, como forma de representação se torna obsoleta e imperfeita para atender este novo homem virtual. Pois era justamente essa imperfeição humana da arte que media com o homem existencial.

 

(*) Esse texto é parte de manuscritos de Gontran Guanaes Netto que, ao longo dos últimos cinco anos vem escrevendo por uma necessidade própria de discutir suas reminiscências conjugadas as reflexões atuais.

O encontro nas cores/luz: Gontran Guanaes Netto e Julio Le Parc

13 ago

Por Gisèle Miranda

Entre eles houve um pacto de arte e política. Em Cores da Esperança’, o poema cores/luz  escrito por Julio Le Parc (1928-) a Gontran Guanaes Netto (1933-2017) também foi assinado por Guanaes Netto a Le Parc: uma inversão na escrita como reafirmamento artístico e político. Entre eles há lutas geracionais.

O argentino nascido em Mendoza, Julio Le Parc, recusou-se a participar da Bienal de Arte de São Paulo em 1964, em protesto ao golpe militar no Brasil que perdurou por mais de vinte anos. Le Parc tornou-se cidadão de dupla nacionalidade franco argentino em função de suas atividades políticas; passou por prisões e desterrou-se para sobreviver. Sabemos o que aconteceu durante esse período: muitas mortes, torturas, sequestros de crianças que foram criadas por seus algozes. As mães, hoje, são as avós de Plaza de Mayo, são aquelas que procuram por seus filhos através de seus netos.

Gontran Guanaes Netto, filho de camponeses foi assistente de Portinari. Tornou-se um cidadão de dupla nacionalidade – franco brasileiro. Depois de algumas prisões conseguiu sobreviver e foi ao encontro da arte política. Em Paris conheceu seu companheiro de cores; na França ambos foram membros fundadores da Brigada Internacional anti-fascistas.

No Brasil, a documentação deste período foi (recentemente) discutida através da Comissão da Verdade.

Gontran Guanaes Netto (1933-2017), série Les Damnés de la Terre, 2000-2001.

Gontran Guanaes Netto e  Julio Le Parc fazem parte do coletivo que pintou Sala Escura da Tortura com relatos de frei Tito de Alencar, entre outros. Ambos são as cores do poema abaixo:

As cores (Luz) da Esperança

Quando o ser humano vem a ser cores,

Quando a cor vem a ser forma humana,

Quando o ser humano este ligado à terra,

Quando o camponês da terra faz brotar seus frutos,

Quando estes frutos são usurpados,

Quando esta usurpação gera a miséria,

Quando esta miséria gera revolta,

Quando esta revolta é reprimida,

Quando esta repressão obedece a uma ordem,

Quando esta ordem é a ordem dos outros,

Quando estes outros acrediam ser proprietários do mundo,

Quando este mundo se mundializa em detrimentos da maioria,

Quando esta maioria, eles os camponeses, vem a ser os  ‘Damnés de la Terre’.

Quando Netto (Le Parc) com sua caixa de cores está presente,

Quando eles ‘ Les Damnés de la Terre’, estes camponeses (desaparecidos) brasileiros (argentinos), mesmo na pior situação, carregam neles, extremamente e internamente suas cores,

Quando suas cores são aquelas da dignidade,

Quando suas cores são aquelas da luta,

Quando suas cores são aquelas da esperança,

Quando suas cores são aquelas da alegria que não se deve apagar,

Quando na caixa de cores de Netto (Le Parc) passa a ser ativa,

Quando suas cores passam a ser militantes, mas autônomos, elas fazem sua revolta,

Quando esta revolta em cores vai ao encontro da justa revolta ‘ Damnés’,

Quando a mesma não passa pelo miserabilismo, nem pela obscura e sombria derrota, nem pela prostração e aniquilamento, mas sim

Pelo desejo e o direito à vida – As cores estão presentes,

Quando estas cores estão presentes no olhar de Netto (Le Parc), no seu coração, na sua primeira sensibilidade, na sua cabeça

Que põem em ordem, as cores passam a ser forma e fé no homem,

Quando tudo que está ancorado no mais profundo de seus ‘ Domnés de la Terre’ e no Netto- Le Parc, Pintor – homem, é evidente que venha a ser figuração,

Quando estão pela intermediação de Netto-Le Parc, com esta forte presença – cor, nós não podemos nos esquivar e nós somos também fortemente envolvidos,

Quando esperança não desaparece, quando a esperança cresce os quadros de Netto-Le Parc permanecem.

Julio Le Parc (1928-), Série 14-5E Acrylico sobre lienzo 171 x 171 Cm 1970

 

(*) datado: “Cachan 14 de haneiro de 2002  Julio Le Parc”

Brava Luta

11 jan

Por Gisèle Miranda

De que se faz um ser tão bruto e tão sensível? Tão simples e tão multiplicador? Tão magistral e tão comum, tão bizarro de carnal: sedutor aos 84 anos!

Gontran Guanaes Netto viveu até 2010 em seu ateliê, que se transformou na Casa da Memória Coletiva, em Itapecerica da Serra (SP/Brasil), projetada e construída pelas mãos que pintavam incansavelmente, desenhavam e redesenhavam;  mãos que capinavam.

Sempre puxava um dedo de prosa com todos que passavam pela estrada de terra. A criançada entrava e saía rindo com uma banana, um pedaço de pão.. Comia o que tinha. Um quadro vendido aqui e acolá, garantia o pão, o feijão, a banana, muitas pinturas e desenhos.

Gontran Guanaes  Netto (Vera Cruz/SP, 1933-Cachan, França, 2017) Catedral do povo, 1990, painel 5 (metrô Corinthians-Itaquera/SP)

Gontran nasceu em Vera Cruz (SP), em 1 de Janeiro de 1933; registrado em 17 de fevereiro 1933. De uma família de trabalhadores rurais, teve pouca escolarização formal.

Pintor de questionamentos humanistas viveu uma juventude que viria a ser clandestina em 1964, no Brasil. Nesse momento assumiu o pseudônimo de André para assinar as ilustrações de publicações de resistência coletiva. Em 1969, exilou-se na França, pois estava ‘sob a ameaça’ de outra prisão; seu pseudônimo André já não lhe garantia a vida.

Nas décadas de 1970 e 1980 trabalhou como um dos doze fundadores do Espaço Cultural Latino Americano em Paris (dezembro de 1980). Fez parte também da Brigada Internacional Antifascistas (1972-1987).

O pintor saído do Brasil com alguns trocados cumpriu aos olhos de uma banca examinadora da Universidade em Nantes, os créditos de sua aptidão ao cargo de professor coordenador do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Arquitetura. Ele, suas mãos grossas e grandes, meio índio, sul americano, latino; aquele brasileiro sem diploma.

Suas pinturas são de brasileiros, de latino americanos, de povos mestiços, de pés descalços, de mãos calejadas, semi-escravidão, escravidão, de fome e de dor. De nenhuma solidariedade, nenhum olhar – a ‘inexistência’ de milhões de pessoas que existem. Sua pintura fez / faz  essa existência. Ele é um pintor comprometido com questões demasiadamente sérias – (in) visíveis e que traz a visibilidade desse mundo.

Em 1984, Gontran Netto voltou para o Brasil e  foi ‘visto pela crítica oficial’ como um pintor ‘demagógico’. Seu retorno tinha como propósito fixar um ateliê em Goiatins (Tocantins), ou seja, estar ligado à terra, e efetivamente, aos boias-frias. O ateliê não conseguiu esse endereço, mas a luta continuou com seu vínculo natural às causas do Movimento dos Sem Terra entre outras causas de resistências coletivas.

Em 1994, expôs pela PAZ pelos 50 anos da Fundação das Nações Unidas e 50 anos de dor por Hiroshima e Nagasaki. Em 1995 participou do Coletivo protesto da chacina da Candelária (RJ), assassinatos de jovens e crianças ocorrido em 1993.

Suas mãos foram movimentos coletivos; firmes e viscerais!

Gontran Guanaes Netto: o Netto, o Velho, o professor e amigo de tantos partiu em 25 de novembro de 2017. Sua obra e sua luta estão inscritas na História da Arte e avante com seus amigos, alunos e admiradores.

retirantesgontranguanaesnetto

Gontran Guanaes Netto (Vera Cruz/SP, 1933- Cachan, França, 2017), Retirantes, 1994.

GONTRAN NETTO vive em seu ateliê, em Itapecerica da Serra (SP), projetado e construído pelas mesmas mãos que pintam incansavelmente; mãos que capinam, desenham e redesenham. Puxa um dedo de prosa com todos que passam pela estrada de terra. A criançada entra e sai, rindo, com uma banana, um pedaço de pão para comer. GONTRAN NETTO come o que tiver. Um quadro vendido, aqui e acolá, garante o pão, o feijão, a banana, e muita pintura e desenhos.

GONTRAN NETTO, nasceu em Santa Cruz (SP), em 1 de Janeiro de 1933; registrado em 17 de fevereiro 1933. De uma família de trabalhadores rurais, GONTRAN NETTO teve pouca escolarização formal.

Pintor de questionamentos humanistas, viveu uma juventude que viria a ser clandestina em 1964, no Brasil. Nesse momento, assumiu o pseudônimo de André para assinar as ilustrações de publicações de resistência coletiva. Em 1969, exílou-se na França – pois estava ‘sob a ameaça’ de outra prisão; seu pseudônimo André já não lhe garantia a vida.

Nas décadas de 1970 e 1980 trabalhou como um dos doze fundadores do Espaço Cultural Latino Americano, em Paris (dezembro de 1980). Fez parte da Brigada Internacional Antifacistas (1972-1987).

GONTRAN NETTO, o pintor saído do Brasil com alguns trocados, cumpriu aos olhos de uma banca examinadora da Universidade em Nantes, os créditos de sua aptidão ao cargo de professor coordenador do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Arquitetura. Ele, suas mãos grossas e grandes, meio índio, sul americano, latino; aquele brasileiro, sem diploma.

Suas pinturas são de brasileiros, de latino americanos, de povos mestiços, de pés descalços, de mãos calejadas, semi-escradão, escravidão, de fome e de dor. De nenhuma solidariedade, nenhum olhar – a ‘inexistência’ de milhões de pessoas que existem. Sua pintura fez / faz ver essa existência.

Dados biográficos de Gontran Guanaes Netto

10 jan

Por Gisèle Miranda

Em 1 de janeiro de 1933, nasceu Gontran Guanaes Netto na cidade de Vera Cruz / SP, Brasil, mas somente registrado em 17 de fevereiro 1933.

Em 1955, nasceu na cidade de São Paulo sua primeira filha, Lucia (fotógrafa residente na França http://www.luciaguanaes.com/). Em 1958, sua segunda filha, Cristina (terapeuta corporal, residente nos EUA) – do casamento com a bailarina Helena Villar.

Em 1959, fez o retrato de Fidel Castro (Birán, Cuba, 1926 – Havana, Cuba, 2016), por solicitação dos Alunos da Politécnica/USP para festejar a Revolução Cubana. O Retrato de Fidel Castro foi levado ao palanque montando na Praça da Sé (região central da cidade de SP) por estudantes simpatizantes e, logo em seguida queimado pela polícia – segundo Gontran: “foi queimado pelo DOPS” – criado em em 1924, e que perdurou durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985). Portanto, o DOPS, desde sua a criação foi tido como ferramenta de controle e repressão as manifestações populares e deveras atuante em torturas e assassinatos.

Em 1960, Gontran foi ouvinte da conferência de Jean-Paul Sartre (Paris, França, 1905-Idem, 1980) e Simone de Beauvoir (Paris, França, 1908, Idem, 1986), em Araraquara/SP. Tornou-se um pintor de questionamentos humanistas sob os auspícios de uma juventude que viria a ser clandestina em 1964, no Brasil.  Assumiu o pseudônimo de André para assinar as ilustrações das publicações ‘proibidas’; ele fez das mãos rudes, as mãos de um pintor Realista.

O sobrevivente Gontran ‘assimilou o conhecimento de forma enviesada’ (como ele próprio diz); assim, confrontou a repressão política e foi um dos fundadores da FAAP/SP, mesmo sem formação universitária, na 2ª fase, em 1967, com a criação das faculdades de Artes Plásticas e Comunicação, e Engenharia.

Paralelamente, as discussões socialistas vertiam-lhe em segredos aos encontros de coletivos ilegais; suas mãos foram além da terra seca, da falta de informação e formação.

Gontran Guanaes Netto (Vera Cruz, São Paulo, Brasil, 1933 – Cachan, França, 2017) ou André, 1968-1969. (foto em p & b da pintura colorida )

Em 1969, exilou-se na França pois  estava ‘sob a ameaça’ de outra prisão; seu pseudônimo André já não lhe garantia a vida. Resistiu durante 5 anos sob pressão da ditadura militar.

Nas décadas de 1970-80, foi um dos doze fundadores do Espaço Cultural Latino Americano em Paris. Lá, conheceu Julio Le Parc (Mendoza, Argentina, 1928-); em 1995, numa contemporaneidade partilhada, Le Parc, o artista Cinético, declarou a Gontran Netto, artista Realista, uma admiração e cumplicidade por sua ‘postura’, sua pintura e suas cores. Seus trabalhos são diferentes; suas cores se encontram na performance do passado coletivo; ambos partilharam a luta na Brigada Internacional Antifascistas (1972-1987).

Em 1973, ´Sala Escura da Tortura’, trabalho coletivo: Gontran Netto, Le Parc, Alejandro Marco (Espanha, 1937-), Jose Gamarra  (Uruguai, 1934-).  A exposição seguiu para o Museu de Arte Moderna de Paris, depois para a Itália, Suíça, Alemanha e Brasil.

Em 1976, Cueco (Uzerche, França, 1929- Paris, França, 2017) disse sobre o trabalho coletivo com Gontran: “Notre travail consiste a suivre le pointillé des differenciacions, descontinuidade de ruptura”.

Em 1979, nasceu o filho Pedro Pierre de seu casamento com a professora francesa Annie Dansky.

De 1979/1980, Gontran Netto pintou para os 20 anos de Revolução Cubana comemorados numa exposição coletiva em NY/EUA.

Nos anos de 1980, engajou contra o racismo com a exposição coletiva “100 artistes contra le racismo’. Em 1983, pintou ‘Apartheid 1’; logo em seguida, “Art contre/against Apartheid”, e nesta tela, Gontran impressionou pelo vazio: apenas uma criança. É o fim ou a esperança? Por outro lado, as cores fortes povoam o vazio da fome e do esquecimento. Para esse encontro, além dos pintores/artistas, houve também um ensaio do filósofo Jacques Derrida (El Biar, Argélia, 1930- Paris, França, 2004).

Gontran teve um ateliê na ‘vila da neblina’ – cité d’sartes. Todo o espaço conquistado em seu exílio na França foi de um ‘homem’ comprometido com questões demasiadamente sérias, mas (in) visíveis. Gontran trouxe a visibilidade desse mundo.

Nos anos de 1983/1984, com as diretrizes da abertura aos exilados ele retornou ao Brasil, após o desterro de 14 anos. Gontran conquistou respeito fora de seu país, mas voltou ao Brasil por necessidade da carnalidade brasileira e pela luta – marca de sua pintura.

Quando expressou o desejo de retornar ao Brasil, foi ‘visto pela crítica oficial’ como um pintor ‘demagógico’ de uma pintura ‘piegas e mal feita’. Seu retorno tinha como propósito fixar um ateliê em Goiatins (Tocantins), ou seja estar ligado à terra e efetivamente, aos boias-frias. O ateliê não conseguiu esse endereço (pressão do ‘coronéis’ donos de terras), mas a luta continuou com seu vínculo natural às causas do Movimento Sem Terra, às resistências coletivas, contra o neocolonialismo.

Em 1987, o reencontro: coletiva de pintores antifascistas. Reencontro repetido em 1993. Também em 1987, período de cartas recebidas, encaminhadas por membros do Movimento Sem Terra. Fez telas e doações; pelas mãos rudes pintou o manifesto dos Sem Terra, com o ‘Leilão de Cabeças de Gados’. (ironizado pelas cabeças de trabalhadores rurais ou cabeças de caipiras)

De 1989 a 1991, para a comemoração dos 200 anos da Revolução Francesa,  Gontran fez das estações do metrô da cidade de São Paulo, Marechal Deodoro e Corinthians-Itaquera, o atelier do povo e do trabalhador; os painéis foram pintados por Gontran nas estações durante meses. Os transeuntes são os rostos que povoam estes painéis. Pintou a escrita dos Direitos Humanos em lingua original. Marianne, a mulher do povo francês, pintada por Eugène Delacroix (Saint Maurice, 1798- Paris, França, 1863),  foi reinventada por Gontran, na mulher do povo brasileiro.

Gontran pintou muitas aulas de História. Lá estão Augusto César Sandino (Niquinohomo, Nicarágua, 1895 – Larreynaga, Nicarágua, 1934), Salvador Allende (Santiago, Chile, 1908- Idem, 1973), Fidel Castro (Birán, Cuba, 1926 – Havana, Cuba, 2016), Nelson Mandela (Mvezo, àfrica do Sul, 1918 – Johanesburgo, África do Sul 2013), Carlos Lamarca (Rio de Janeiro, RJ, 1937 – Ipupiara, Bahia, 1971), Carlos Marighella (Salvador, Bahia, 1911 – São Paulo, São Paulo, 1969), Luís Carlos Prestes (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1898 – Rio de Janeiro, RJ, 1990), Frei Tito de Alencar (Fortaleza, Ceará, 1945 – Éveux, França, 1974) e tantos outros.

Gontran Guanaes Netto (Vera Cruz, São Paulo, Brasil, 1933 – Cachan, França, 2017), Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão – painel 4, 1989 (metrô Mal. Deodoro, SP), Óleo sobre madeira, 2,0 x 16,0

Durante o trabalho na estação Marechal Deodoro ele conheceu a bióloga Adriana Madeira, mãe de seu quarto filho Gabriel; pouco antes, também pais da falecida ainda bebê, Luiza (primeira filha do casal).

Em 1993, a discussão da ‘reconstituição’ de uma obra de Portinari. O convite foi formalizado, mas não se concretizou. Ele sabia que podia e não seria restauro, e sim, reconstituição. Um lamento histórico: Gontran como Portinari – “sueña y fulgura, um hombre de mano dura, hecho de sangre y pintura, grita en la tela”, como ‘um son para Portinari’ (letra/ música: Nicolás Guillén e Horacio salinas/ na voz Mercedes Sosa).

Em 1994, expôs pela PAZ. 50 anos da Fundação das Nações Unidas e 50 anos de dor por Hiroshima e Nagasaki.

Em 1995, o coletivo em protesto a chacina da Candelária (RJ) – assassinatos de crianças por ‘matadores profissionais’, conhecidos como ‘esquadrão da morte’, ocorrido em 1993.

Em 2003, a exposição ´Sala Escura da Tortura´ no Fórum Social em Porto Alegre (RS), Exposição ´Sala Escura da Tortura´no Museu do Ceará, Fortaleza (CE), sob curadoria de Edna Prometheu. Em 2015-2016, as telas circularam pelo Brasil acompanhando a Comissão Nacional da Verdade.

Gontran foi leitor de clássicos da literatura francesa, pensadores, psicanalistas, filósofos, das cartas que chegavam de qualquer lugar; estudioso dos tratados das artes e de preocupações que o tempo ainda não sanou: a fome, as guerras, as doenças, os preconceitos, a multidão (in) visível.

Em 25 de novembro de 2017, aos 84 anos, Gontran Guanaes Netto faleceu em Cachan, França. Ele proclamou como nenhum outro artista, a problemática da exclusão, e com eco próprio pela “consciência que sobrevive a qualquer circunstância” e “antigo combatente, jamais!”

Sugestão de leitura para compor esses dados biográficos Brava Luta

Outras sugestões para leitura sobre Gontran Guanaes Netto

BIENAIS DE ARTE DE SÃO PAULO (salve, Basquiat)

2 mar

Por Gisèle Miranda

 

Minha intenção com este texto é problematizar alguns acontecimentos da 28ª Bienal de Arte de São Paulo. Tais como: a abertura oficial da Bienal; o fato de um dos andares do prédio da Bienal sem obras, o que gerou a frase ‘Bienal do vazio’ e a pichação ocorrida dentro do prédio durante a Bienal.

Porém, o percurso que farei remete a 1ª Bienal de Arte de 1951, na época local adaptado. Ano em que foi pela segunda vez empossado o presidente Getúlio Vargas (1882-1954), pelas mãos de seu antecessor presidente Gaspar Dutra (1883-1974).

Vargas historicamente ficou conhecido como um ‘nacionalista’ de práticas ‘populares’ e ‘populistas’ (criação da carteira de trabalho, o aumento de 100% do salário mínimo, ‘o petróleo é nosso’, entre outros). Mas por outro lado, cometeu o inesquecível e inequívoco apoio ao Fürer, através do ato de deportação a Alemanha de Olga Benário Prestes (1908-1942), grávida do então, ‘cavaleiro da esperança’ Carlos Prestes (1898-1990). Olga quando entregue ao nazismo foi assassinada, sendo uma dos seis milhões de judeus assassinados na história do holocausto.

Não perdi o fio Ariadne, apenas faço um leve apanhado histórico do entorno da 1ª Bienal. E o destaque do ‘nacionalismo’ que aludia o governo ia na contra mão dos questionamentos levantados para a Bienal pelo organizador da mesa redonda, a figura de Flávio de Carvalho (1899-1973), arquiteto, pintor e performer que participou do ‘modernismo’ da década de 1922.

Performance de Flávio de Carvalho: traje tropical, 1956.

As discussões tomaram corpo via questões:

a) por que sob auspícios dos ‘autoritários’ e já ultrapassados ‘modernistas’?

b) Arte de grã-fino?

c) Qual o significado da Bienal?

d) Será que obra realizada por um louco é arte?

e) Arte figurativa ou abstrata?

As questões acima geraram muitas polêmicas e até mesmo ‘tapas’.  Os antigos ‘modernistas’ foram massacrados. E, sobre a questão – arte de ‘louco’ ou pessoas com problemas psíquicos poderiam ser artistas – chamo a discussão o trabalho pioneiro no Brasil da psiquiatra junguiana Nise da Silveira (1905-1999), que respondeu com resultados indiscutíveis, fechando assim, não uma questão, mas discutindo o preconceito. Vieram Emygdio de Barros (1895-1986), Raphael Domingues (1912  – 1979 ) entre outros; e se não bastar, o divino Arthur Bispo do Rosário (1909-1989).

Arthur Bispo do Rosário com seu manto bordado s/d

Sobre figurativo ou abstrato houve reverberação na nova geração de artistas de 1951, que ficou dividida em dois grupos manifestos: o ‘Ruptura’ encabeçado por Waldemar Cordeiro (1925-1973), Abstracionista, Concretista e, em 1959, Neoconcretista. Versus o ‘manifesto contra o manisfesto’ ou o segundo grupo – ‘Consequência’ -, cuja participação de Gontran Guanaes Netto (1933-), figurativo, e de comprometimento político permanece nos dias de hoje. Embora hoje essa divisão não seja polêmica como outrora.

A segunda Bienal, já no prédio projetado por Oscar Niemeyer (1907-2012) e Burle Marx (1909-1994) no Parque do Ibirapuera continuou rançosa, pois perdurava o questionamento sobre o significado da Bienal. Problemática que ficou em segundo plano já que o importante foi associar a Bienal aos festejos do IV Centenário de São Paulo, ou seja, em 1954, ano do suicídio do então presidente Getúlio Vargas.

As Bienais percorreram tempos em que seu significado ficou abafado. Tempos adversos, tempos de ditadura militar em que o artista Cinético e alquímico Julio Le Parc (1928-) protestou com sua ausência na Bienal de 1964. Tempos de reabertura democrática, ‘diretas já’, ‘impeachment’, enfim, tempos em que a arte tomou a dianteira e assumiu sua potência.

Nada de bola de cristal, mas a natureza própria de sua indomável ou insubmissa coragem de compor os tempos sendo sua própria vanguarda. E, ao mesmo tempo, cobrindo um necessário olhar ao passado para justificar sua existência e seu indiscutível fascínio de estarrecer, criar,  fazer, tocar as feridas e as consciências. De criar um possível -um devir.

Após a experiência da Bienal, reporto-me em memória na cobertura  da 27ª Bienal de Arte, sob curadoria de Lisette Lagnado e sua proposta de ‘como viver junto’. Matéria que em 2006/2007  foi ao ar no canal São Paulo.  Algumas obras foram para as ruas, em bairros de baixa renda e centro expandido.

Ainda como eco, o significado da Bienal foi discutido como prévia a abertura oficial através de psicanalistas, historiadores, filósofos, artistas, entre outros. Nos eventos que participei deparei com uma boa quantidade de pessoas interessadas em ouvir, discutir, debater sobre as obras e sua configuração à ideia de como viver junto, seja ela abstrata, figurativa, conceitual.

Neste mesmo período, o Memorial da América Latina expôs um ‘novo muralismo latino-americano’, via trabalho de grafiteiros,  em diapasão nominal dos pichadores. A curadoria dessa exposição foi do grupo comando da Galeria Choque Cultural (B. Ribeiro/ M. Martins/ E. Saretta).

Vejamos o que diz a galeria sobre o tema:

“Numa visão simplista, costuma-se associar a pichação ao vandalismo inconseqüente… enquanto os graffiti seriam obras de arte, realizadas com autorização e competência… Mas, na verdade, não existe uma linha clara que separe o graffiti da pichação.
A pichação é uma forma de comunicação marginal, cultuada por estudantes do mundo inteiro, durante os anos ‘60 e ’70… ‘Abaixo a repressão’… Quanto aos museus, melhor do que tentar colocar a cidade dentro deles, seria abri-los para a arte que acontece a sua volta.”

Em 2008, a Galeria Choque Cultural foi pichada e algumas obras danificadas. A Galeria foi vítima de um ‘protesto contra a comercialização de obras das ruas’. Pouco tempo antes, o Centro Universitário Belas Artes foi pichado por um aluno que imprimiu na sua atitude ou vandalismo (como foi divulgado pela mídia), a proposta de seu trabalho de conclusão de curso.

Entrada da Galeria Choque Cultural, 2008.

Ainda em 2008, na 28º Bienal de Arte sob curadoria de Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen – ‘em vivo contato’,  a Bienal foi pichada, justamente no segundo piso que ficou propositalmente vazio, dando o apelido de ‘Bienal do vazio’, que segundo a proposta da curadoria – visava promover ‘uma reflexão sobre o sistema das Bienais’ enfatizando a ‘arquitetura e romper com o tradicional’.

Pichação no prédio da Bienal, 2008

Antes da abertura oficial da 28 Bienal – de praxe as discussões bem pontuadas: para quê a Bienal? Para quem? E ao mesmo tempo, através dos convidados palestrantes fazer um apanhado sobre todas as Bienais desde 1951.

Destaco por escolha muito oportuna, o encontro que se deu em 18 de setembro de 2008 com a presença do crítico de arte Alberto Tassinari e o artista José Resende que em lugar de sua fala preferiu o silêncio e um pedido ao cinegrafista – pedido um tanto esquisito no primeiro instante – mas muito sagaz em um segundo momento: – filme a platéia! E, apesar de serem oradores de renome e essas atividades divulgadas em jornais de grande porte, a platéia estava vazia. No máximo 15 pessoas contando com os curadores e o quadro de pertencimento organizacional.

A ‘Bienal do vazio’ se deu anterior ao vazio oficial, e independente da arquitetura magnífica de Oscar Niemeyer.

A pichação na tênue linha de ser arte ou não – não foi tênue e muito menos novidade.

Salve, Basquiat! E que venha Bispo do Rosário!

J. M. Basquiat, (1968- 1988).

Referências:

AMARAL, A.  Arte para quê? A preocupação social na arte brasileira 1930-1970. São Paulo: Studio Nobel, 2003.

BASQUIAT (filme). Dir. Julian Schnabel, EUA, 1996, 106 min., color., son., leg. português (http://www.miramax.com/basquiat) (imperdível David Bowie como Andy Warhol)

GULLAR, F. Etapas da Arte Contemporânea: do cubismo à arte neoconcreta. Rio de Janeiro: Revan, 1999.

Filme Nise da Silveira Nise, o coração da loucura.

Documentário de João Wainer e Roberto Oliveira – PIXO http://www.youtube.com/watch?v=KHVwEq97ukg

Documentário de Vladmir Seixas http://www.youtube.com/watch?v=UHJmUPeDYdg

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