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Série Releituras & Breves Comentários I – História e Memória através de Maurice Halbwachs & Marc Bloch

8 set

Por Gisèle Miranda

 

“os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais”

(Provérbio Árabe, In: Apologia da História ou o ofício do Historiador, 2001)

Maurice Halbwachs faz parte dos seis milhões de judeus que os nazistas assassinaram. Ele estava com 68 anos quando às vésperas de 1945, no final da Segunda Guerra Mundial tiraram-lhe o tempo de quiçá novos escritos. Sociólogo admirado em diversas áreas deixou-nos a obra Memória Coletiva publicada postumamente em 1950 e, uma segunda edição no auge do enigmático ano de 1968, Francês.

Marc Bloch era historiador e deixou-nos Apologia da História ou o ofício do Historiador e, A Estranha Derrota, manuscritos durante a sua prisão; logo depois foi assassinado por um pelotão de fuzilamentos da Gestapo. Bloch e muitos outros foram admiradores de Halbwachs, tinham-no como referência, assim como admiravam e remetiam comumente Émile Durkheim.

O que move esse encontro de dois pensadores, hoje, além da memória histórica e a historicidade pulsante é, primeiramente, o fato incontestável dos assassinatos de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Em 2018, Ano Novo Judaico de 5.778 anos, século 21,  a lembrança e respeito à memória e história dos mortos inocentes, vítimas da intolerância, do preconceito.

O ex presidente do Irã (de 2005 a 2013) Mahmoud Ahmadinejad declarou à revelia na Universidade do Teerã, a inexistência deste fato histórico de horror. Fato que também nos remete a temática de culturas em conflito entre o estado de Israel e o não estado da Palestina. Esse conflito surgido em 1948 esbarra em muitos valores, em que as vítimas do passado tornaram-se algozes no presente[1].Conflitos de caráter econômico acionaram uma máquina de política ou cultura que tem que ser tratada com particularidades e subjetividades, diferentemente das improbidades do antissemita, homofóbico e ex presidente do Irã.

 

A Memória Coletiva de Halbwachs

Recordo Halbwachs através de leituras e aulas da prof. Márcia Mansur D’Aléssio, em 1992. Do autor à impossibilidade de ´conceber o problema da evocação e da localização das lembranças se não tomarmos para ponto de aplicação os quadros sociais reais que servem de pontos de referência nesta reconstrução que chamamos memória´ (DUVIGNAUD, In: Memória Coletiva, p. 9).

A memória dessas discussões intercalou a presentificação social ao passado reinventado, nos dando o eterno retorno da memória histórica. Se adentrarmos a memória individual, pessoal, nos tornamos um ponto de vista sobre a memória coletiva e, por ora, vindo a se confundir com a memória coletiva, que por sua vez, não se confunde com a memória individual, pois a consciência social vive do movimento ao mesmo tempo que cria a recomposição do passado.

A renovação do tempo se faz neste momento, na escrita que o pensamento maturado do ofício (implicou) inicialmente na temporalidade em memória das aulas de D´Aléssio sobre Halbwachs, e que por conseguinte, sobreposto a livros, desenhos, poesias, performances, aulas, vivências, constroem as memórias dos tempos coletivos e individuais  que vão ao encontro da história. Saber conduzir o detalhamento do ofício requer, entre outras coisas, a reflexão sobre as mentalidades[2], que se encontram às vésperas das memórias e, consequentemente, podem formar elementos à história.

Mesmo que a morte intervenha, as lembranças são simuladoras, pois processam na renovação, na reconstrução, na releitura e, isso nada mais é que a memória em atividade. E para que as memórias não se percam, a história finca, estaca por estaca. As estacas somam, sem subordinar, além de serem descontínuas diante e durante a pesquisa histórica.

 

A Apologia da História de Marc Bloch

Marc Bloch tem um vigor necessário para todo historiador, pois discute o ofício em suas minúcias, faz apologia da história; ele escreveu sobre esse tema enquanto lutava pela Resistência Francesa (Lion) e, enquanto era torturado pela Gestapo.

Fundou a Escola e Revista dos Annales ou a Nova História em parcerias com outros historiadores em 1929; Como medievalista, nunca se absteve de participar de seu tempo, por isso deixou os manuscritos de seu ofício.

Rachel Korman – Benedito, 1999 photograph 140 X 100 cm.

O medievalista Jacques Le Goff ressaltou o lado apocalíptico de Bloch – inerente a geração vivida, acolhida em memória coletiva, e de valor histórico. Para ser  Marc Bloch  foi preciso ser carnívoro, andarilho… portanto, o historiador que escreveu Apologia da História (inacabado) reverteu-se em um ato completo de história (In: Apologia da história, p. 34); livro este, publicado postumamente por seu parceiro dos Annales, e também historiador, Lucien Febvre, em 1949.

Bloch foi daqueles a quem se diz aos homens pasmos do presente, o ´porque ´de serem ignorantes de seu passado. Perceber o recente, o presente como pensamento crítico via passado.

O conhecimento é incessante, transformador, e por isso rasga na escrita, abre novas trincheiras, arranca as entranhas com as próprias mãos. A pesquisa histórica reúne pedaços, lastros, escombros; consegue ler, ver, reler, criticar, analisar, avaliar para colocar na escrita.

Rachel Korman – Serena, 1999 photograph 140 X100 cm.

 

Bibliografia

BLOCH, Marc L. B., 1886-1944. Apologia da história ou o ofício do historiador. Prefácio de Jacques Le Goff; apresentação à edição brasileira de Lilia Moritz Schwarcz. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

HALBWACHS, Maurice, 1877-1945. A memória coletiva. Prefácio de Jean Duvignaud; Tradução de Laurant León Schaffter. São Paulo: Vértice & Editora Revista dos Tribunais, 1990.


[1]Sugestão bibliográfica:

SAID, Edward W. Cultura e Política. Prefácio de Emir Sader; Tradução de Luiz B. Pericás. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003.

Ver tb. sobre Amos Gitaï neste blog GITAÏ diz: “Mais tarde, você vai entender…”; FICÇÃO OU REALIDADE?

Ver tb. sobre o ex  presidente do Irã  de 2005 a 2013 Mahmoud Ahmadinejad“Faca de dois gumes”

[2] Sobre o termo Mentalidades Série Releituras & Breves Comentários II – ‘História e Memória’ por Jacques Le Goff e Déa Ribeiro Fenelon

Série Releituras & Breves Comentários VII: vestígios (e vertigens) à beira de uma falésia – Roger Chartier

19 jul

por Gisèle Miranda

 

Roger Chartier é um velho amigo do Brasil.1]. Ele é a quarta geração d´ École des Annales, da história econômica e social dos anos de 1930 à antropologia histórica dos anos de 1970. Diz-se: École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, em verdade, École des Annales. É sempre uma tentação para a Ego-história! E por que não?[2] 

Vestígios  (e suas vertigens) à beira da falésia: vontade de se jogar ou medo de morrer? Sim, é a constatação de crise, e de incertezas. Mas há o incentivo ao retorno dos arquivos. Assim construí parte da obra do culturalista Paschoal Carlos Magno  e arranquei o silêncio dos amontoados[3]. As notas tornaram-se textos da diferença, da singularidade do discurso histórico ou a projeção no passado de desejos do tempo presente (Hobsbawm, In: À Beira da falésia, p. 15)

Chartier encontrou inspiração nos pensamentos da ruptura e da diferença (hermenêutica e fenomenologia de Paul Ricoeur) e exerce seu ofício sustentando três noções: discurso, prática e representação – através das obras de Michel Foucault, Michel de Certeau e de Louis Marin, além de Ricouer: a tradição historiográfica à qual pertenço – a da história sócio-cultural à maneira dos Annales.( Chartier, 2002, p. 21)

Chartier também dialogou com Hobsbawm no campo de interesse. Chartier pela vertente da polivalente leitura eletrônica, e obviamente da obra como obra e sua relação com o objeto escrito[4]. A obra como obra prevalece: o livro ou a forma livresca.

Hobsbawm relacionou o campo de interesse ao paradigma de esquerda e direita na política. A geração eletrônica e a fragmentação que geram temáticas. E para um bom entendedor cabe manter à vista essa diferença porque não são apenas riscos de hegemonia de línguas, como apontou Chartier. Mas um sutil triunfo na comunicação eletrônica (do inglês).

Sempre há riscos, quando há os meios que sob o poder que os mantêm, antecipam algo que como pensadores, historiadores, não vemos, ou seja: a morte dos livros, da indiferença sobre a direita e a esquerda, a destruição de outras linguas, ou ausência da obra. Umberto Eco interpôs sobre nossas preocupações e sobre a morte anunciada da obra, do livro, da forma livresca e da direita e esquerda.

Na Antiguidade quando surgiram os livros eles eram vistos como um sucedâneo da palavra oral (Borges, El Libro, 1978). Do palco à página Chartier (2002) resgatou a intrínseca relação da escrita e a oralidade através do teatro, da transmissão oral[5] dos textos e a criação literária – obra. A Modernidade e mesmo antes dela, a leitura silenciosa como um sucedâneo do livro. (Chartier, 2001)

Jorge Luis Borges por Eduardo Comeña, s/d: “Cego, Jorge Luis Borges aperta os olhos para melhor escutar as palavras de um leitor que não se vê” (In: Manguel, 1997, p. 17)

E hoje? Caos textual? Digamos, confusão: ´à beira da falésia – a história entre certezas e inquietude.’ E, para todos que se aproximam à beira da falésia, há um amparador: o trabalho de um pensamento que se situou ´no ponto de cruzamento de uma arqueologia das problematizações e de uma genealogia das práticas.´ (Foucault, 1984 p. 19. In: Chartier, 2002, p. 150)

E por fim, `O livro não está condenado, como apregoam os adoradores das novas tecnologias?’ – O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, diz ECO:  http://bit.ly/csWpWG


Referências:

BARROS, José D’Assunção. A História Cultura e a Contribuição de Roger Chartier. Diálogos, UEM, v. 9. n°1, 2005

CHARTIER, Roger. À beira da falésia:a história entre as incertezas e inquietude. Tradução Patríca Chittoni Ramos. Porto Alegre: Editora Universidade/UFRGS, 2002.

CHARTIER, Roger. Do palco à página: publicar teatro e ler romances na época moderna – séculos XVI-XVIII. Tradução Bruno Feitler. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.

CHARTIER, Roger. Cultura Escrita, literatura e história: conversas de Roger Chartier com Carlos Aguirre Anaya, Jésus Anaya Rosique, Daniel Goldin e Antonio Saborit. Tradução Ernani Rosa. Porto Alegre: ARTMED Editora, 2001.

FOUCAULT, Michel. Histoire de la Sexualité t. II, L´Usage des plaisirs, Paris, Gallimard, 1984, p. 19.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) Sobre história. Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) O novo século: entrevista a Antonio Polito. Tradução Claudio Marcondes. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

HOBSBAWM, E.; Ranger T. (Org.) The Invention of Tradition. Cambridge, 1983.

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 1997

Programa Roda Viva – TV Cultura: Roger Chartier. Setembro, 2001

VAINFAS, Ronaldo. Os protagonistas anônimos da história: micro-história. Rio de Janeiro: Campus, 2002.

ZUMTHOR, Paul. A Letra e voz: a “literatura” medieval. Tradução Amálio Pinheiro & Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Tradução Jerusa Pires Ferreira; Maria Lúcia Diniz Pochat; Maria Inês de Almeida. São Paulo: Hucitec, 1997.


[1]São Paulo: USP, departamento de História e Bienal do Livro, Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil. Maio, 2001.

[2] Sobre Ego-História Série Releituras & Breves Comentários IV – ‘Conversas com historiadores brasileiros’ e ‘Usos & abusos da história oral’

[3] MIRANDA, Gisele Ou MADEIRA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000). Versão para o blog Tecituras (http://bit.ly/b5mkJ1)

[4] Entrevista com o historiador Roger Chartier no programa Roda Viva, da TV Cultura em 3/9/2001.

[5] Sobre transmissão oral:   Série Releituras & Breves Comentários VI: Paul Zumthor e as vertentes de Geneviève Bollème

Série Releituras & Breves Comentários VI: Paul Zumthor e as vertentes de Geneviève Bollème

7 abr

Por Gisèle Miranda

Toda natureza produz seus monstros… esquece-se que uma anomalia é o fato em busca de  interpretação. Paul Zumthor, 1993, p. 17.

Paul Zumthor em A Letra e a Voz [1]

Conheci o trabalho de Zumthor via departamento de Comunicação e Semiótica da PUC/SP, pouco antes de seu falecimento, em 1995.[2].

Zumthor era poeta e medievalista; esteve no Brasil pela primeira vez em 1977, e ficou fascinado pela Literatura de Cordel como exemplo de que as tradições garantem continuidades;  sua memória vocal é corpórea e emocional, primordial para compreender a tradição oral.

O autor absorveu a história da música, teatro e pintura tendo como base a instauração dos princípios da literatura medieval através da voz e da performance.

Zumthor foi contra a discriminação dicotômica do popular/erudito, por isso foi extremamente cauteloso ao uso dos termos. Por exemplo: “popular” utilizado entre aspas e deveras atento às suas diferentes aplicações, principalmente exaltando a pontuação poética da voz.

Com Bakhtin, Zumthor se aproximou via alegoria do Realismo Grotesco[3]presente nos trabalhos artísticos de Bosch, Goya, entre outros.

GOYA, Two old people eating soup, 1820-21

Embora o estudo da oralidade tenha se dado tardiamente (década de 1950) – a oralidade estava ocultada e recalcada em nosso inconsciente cultural e escravizados pelas técnicas escriturais e pela ideologia que elas secretam[4]. É justamente nesse momento que surge a ideia de oposição do “popular” e “erudito”, pois a literatura erudita marca o liame do que é admissível deixando de lado o inadmissível e o conjecturado como folclore ou como ausência de escritura.

O livro A Letra e a Voz fala da teatralidade do discurso, da poesia existente na textualidade. Distinguindo as diferenças da tradição oral (duração) e da transmissão oral (movimento performático), assim como suas constituições temporais.

A performance, segundo Zumthor equilibra a comunicação com a recepção. Dessa forma, o autor se organizou através de marcos cronológicos para a realização da poética da voz exemplificado o período correspondente de seus estudos como medievalista. Ele elaborou seu livro de maneira descontínua valsando por várias áreas.

Vertentes de Geneviève Bollème

É interessante compor O Povo por escrito de Bollème a discussão de Zumthor. Bollème enfoca o julgamento do termo “popular”. Essa investigação se deu através dos estudos de linguas e absorções do termo – de Platão, Sartre, Foucault… concentrando em Michelet, Luxan e Simone Weil. Segundo Le Goff, que prefaciou O Povo por Escrito, Bollème conseguiu tecer sua investigação no campo da reflexão e da ação.

O uso do termo “popular” remete a apropriação política que, em geral é utilizada de modo indireto para falar do povo sem nomeá-lo. Tal é o prisma de Michelet, ou seja, o povo como memória onde coabita a consciência política, ou como Luxan que situa sua escrita como prática política (arma).

Pela via de Simone Weil – através da infelicidade da condição operária –, a filósofa colocou-se em laboratório no vivenciar de uma operária até esbarrar na solidão e em um monólogo que amarga nos seus limites.

Do real e do imaginário; da prática e da teoria; da vida e da obra. E, compreende que o povo não se define, nem se pensa, nem se fala, e indaga: pode-se apreendê-lo em sua ação ou haverá pelo menos uma representação dele? Então, diz: o povo é a própria revolução, pois ele se apresenta como poder de participação e de integração, no momento em que a comunidade unânime subverte qualquer hierarquia e qualquer ordem estabelecida. [5]

GOYA, O sono da razão produz monstros, 1797-8

(*) Sobre a imagem: Goya: “O sono da razão produz monstros”, por Sergio Paulo Rouanet:  “A coruja tirânica que quer impor sua vontade ao artista é a razão narcísica do hiper-racionalismo. Os morcegos são as larvas e os fantasmas do irracionalismo. Dois animais deficitários, truncados. O morcego tem uma audição aguda, mas é cego. A coruja enxerga de noite, mas não de dia. Falta um terceiro animal na zoologia de Goya, mais completo. Não, não falta. Ele está no canto direito, enorme, olhando fixamente o espectador. É um gato. O gato ouve tudo e tem uma visão diurna e noturna. Sabe dormir e sabe estar acordado. E sabe relacionar-se com o Outro, sem arrogância, ao contrário do seu primo selvagem, o tigre, e sem servilismo, ao contrário do seu inimigo domestico, o cão. É a perfeita alegoria da razão dialógica, da razão que despertou do seu sonho, é atenta a todos os sons e todas as imagens, tanto do mundo de vigília como do mundo onírico, e conversa democraticamente com todas as figuras do Outro, sem insolência e sem humildade”. V. Tb. http://bit.ly/bXZ9Qa

Referências:

BAKHTINE, Mickhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, Editora da Universidade de Brasília, 1993

BOLLÈME, Geneviève. O povo por escrito. Tradução Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

FERREIRA, Jerusa Pires. Cavalaria em Cordel: o passo das águas mortas. São Paulo: Hucitec, 1993.

ROUANET, Sergio Paulo. A Deusa Razão. In: NOVAES, Adauto (Org.) A Crise da Razão. São Paulo: Companhia das Letras; Brasília, DF: Ministério da Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Nacional de Arte, 1996, pp. 298-299)

ZUMTHOR, Paul. A Letra e voz: a “literatura” medieval. Tradução Amálio Pinheiro & Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Tradução Jerusa Pires Ferreira; Maria Lúcia Diniz Pochat; Maria Inês de Almeida. São Paulo: Hucitec, 1997.


[1] Zumthor nasceu em Genebra, 1915 e faleceu em  Montreal, 1995.  O livro A Letra e a Voz foi escrito entre 1982 e 1985. Três situações de cultura  na Oralidade: primária e imediata (sem contato com escritura); oral mista (coexiste com a escritura – defasada –dos séculos V ao XV, a oralidade estava mais para a mista, conforme época, regiões, classes sociais e indivíduos); oral segundo (com base na escritura – valores da voz no uso do imaginário – ou seja, cultura letrada.

[2] Através das traduções de Jerusa Pires Ferreira, pesquisadora da Novela de Cavalaria, temas medievais e de estudos orais e relações escrita/oral. Professora da ECA/USP e do Programa de Comunicação e Semiótica da PUC/SP.

[3] Realismo Grotesco: “… sistema de imagens da cultura popular cômica … o cósmico, o social e o corporal… numa totalidade viva. IN: A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, 1993, p. 17.

[4] Zumthor, 1993, p. 8.

[5] Bollème, 1988, p. 131; 139; 140 e 152.

Série Releituras & Breves Comentários V: Os cometas Philadelpho Menezes & Renato Cohen

9 jan

por Gisèle Miranda

 

Eu os conheci no auge de suas atividades acadêmicas e artísticas; e como num estalo desapareceram. Ambos faleceram cedo interrompendo um futuro promissor.

A partir dos diálogos que tive com eles fui confrontando posições com relação as as minhas pesquisas finalizadas no departamento de História da PUC/SP.

Entre passado e presente vivenciei a sensação de futuro. A vanguarda desses profissionais não me saciou com respostas pontuais, mas proliferaram discussões.

 

Leonilson (Fortaleza, CE, 1957- São Paulo, SP, 1993) Com o Anjo da Guarda, c. 1991. Aquarela e caneta permanente sobre papel 9 x 6,2 cm. Coleção MAM/SP) 

 

Philadelpho Menezes (São Paulo, SP- 1960- São Paulo, SP, 2000)

A primeira leitura que fiz do Phila (como era carinhosamente chamado) foi: A crise do passado. O que invariavelmente estimulou em mim, uma crise sem fim. Como lidar com essa crise sendo eu uma historiadora? Não ignorando a fugacidade e a transitoriedade do presente que propõe sempre a modificação do passado recente – algumas vezes recuperando um passado remoto… (Menezes, 1994, p. 9).

E, em se tratando das artes (em geral) não bastava abarcar os conceitos, então fui avançando e escavando os instantes; fui percebendo que havia um poço sem fundo, e que a matéria examinada é instável e não se revela por inteiro…; que muitas vezes há inadequação do conceito diante da obra… pois, há sentidos ocultos, inimaginados, que escapam das camisas-de-força, denunciam a estreiteza dos sistemas (COLI, 1993, p. 51 In: o ensino das artes nas universidades).

Para entender o que Jorge Coli escreveu eu precisei romper e experienciar. Para estudar as vanguardas artísticas fui de encontro ao muro – escavei até sangrarem meus dedos e cheguei à poesia sonora de Philadelpho (elaboração fonética, vocal, acústica, eletroacústica das poéticas de experimentação. (1992, p. 9) Arte não é domada, ela subverte e intervém.

Em Signos plurais organizado por Philadelpho e com textos de diversos intelectuais ligados às artes, questões como globalização, novas tecnologias geraram possibilidades sobre o pensar artístico contemporâneo – contexto marcado pela pluralização/fragmentação. Assim como os modos de consumo são inventados assim como as próprias tradições culturais são frutos de processos de fabricação cultural (JAGUARIBE, 1997, p. 75 In: Signos plurais).

Aos termos inventados e fabricação torna-se possível discorrer pelos empréstimos e filtros discutidos pelo historiador Peter Burke. (1997, p. 5) Esses empréstimos e filtros se adéquam ao denominado cosmopolismo cultural, ou seja, uma abertura crítica à diversidade do mundo frente às teorias e aos mecanismos de estandartização e homogeneização cultural, e face ao entrincheiramento etnocêntrico de grupos e nações… tecendo pontos de diálogos e estranhamentos. (JAGUARIBE, 1997, p. 81)

Um bom exemplo do diálogo e estranhamento é ouvirmos a sobreposição de um trecho da Sinfonia 40 de Mozart com o canto dos pigmeus africanos, fruto do trabalho poético e performático;  registrado em CD e livro pelo saudoso professor, mescla de médico e monstro das artes a quem o Brasil deve o experienciar e a propagação da poesia sonora e visual: Viva, Philadelpho Menezes!

 

 

Renato Cohen (Porto Alegre, RS, 1953 – São Paulo, SP, 2003)

Acompanhei o trabalho de Renato Cohen na Cia. Teatral Ueinzz, coordenado pelo filósofo e ator Peter Pál Pelbart, na época, dirigido por Renato Cohen e Sergio Penna; os atores são, em grande parte, pacientes do hospital dia A Casa (2).

Da leitura de Work in Progress na cena contemporânea, o conceito do Work in progresss, originário das artes plásticas, em action painting, as construções transitórias das assemblagens, collagens.

A combinação mirabolante Cia. Teatral Ueinzz e Work in Progress esteve permeado pelo risco físico e psíquico, vivificando o momento, matéria existencial dos participantes fluiu numa transposição de linguagens, de estranhamento cênico e análise de recepção. (Cohen, 1998, p. 18; 31)

O guardião da vanguarda se foi? Não! Viva, Renato Cohen!

(*) A Série Releituras é uma proposta insurgente, que visa uma escrita a partir de dois autores ou dois livros em releituras e breves comentários.

 

Bibliografia:

COHEN, Renato. Wok in progress na cena contemporânea: criação, encenação e recepção. São Paulo: Perspectiva, 1998.

COHEN, Renato. Performance como linguagem: criação de um tempo-espaço de experimentação. São Paulo: Perspectiva; Editora da Universidade de São Paulo, 1989.

MENEZES, Philadelpho. A crise do passado: modernidade, vanguarda, metamodernidade. São Paulo: Experimento, 1994.

MENEZES, Philadelpho (Org.) Signos plurais: mídia, arte, cotidiano na globalização. São Paulo: Experimento, 1997.

MENEZES, Philadelpho (Org.) Poesia sonora: poéticas experimentais da voz no século XX. São Paulo: EDUC, 1992.

 

Outras sugestões:

ARTE e tecnologia (Catálogo) São Paulo: Instituto Cultural Itaú, 1997. (Exposição e Simpósio Arte e Tecnologia ocorrida no ICI, de 23 de setembro a 26 de outubro de 1997).

BARBOSA, Ana Mae T. B. et al. O ensino das artes nas universidades. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; CNPq, 1993.

BURKE, Peter. Inevitáveis empréstimos culturais. Folha de S. Paulo, São Paulo, 27 de julho de 1997. Cad. Mais!

COELHO, Sergio Salvia. Renato Cohen foi o guardião da vanguarda. Folha de São Paulo, São Paulo, 21 de outubro de 2003. Ilustrada E-2.

MENEZES, Philadelpho et al. Poesia hipermídia interativa (CD). São Paulo: Edição Universidade Presbiteriana Mackenzie, Estúdio de poesia experimental da PUC/SP, FAPESP, 1998.

MENEZES, Philadelpho et al. Poesia sonora hoje (CD). São Paulo: Estúdio de poesia experimental da PUC/SP – 002, 1998.

MENEZES, Philadelpho et al. Poesia Sonora: do fonetismo às poéticas contemporâneas da voz (CD). São Paulo: Estúdio de poesia experimental da PUC/SP – 001, 1996.

ROMA Antiga: arqueologia musical experimental (Performance). Direção Gisèle Miranda. FESB, 1998.

SYNAULIAMusic from ancient Rome (CD). Italy: Amiata Records, 1996, Vol. I.

1 “Philadelpho Menezes (São Paulo SP, em 1960 – São Paulo SP 2000) publicou seu primeiro livro de poemas: “4 achados construídos” (Edições Aicás, 820, SP), em 1980. Depois seguiram-se: “Poemas 1980-1982” (1984), e “Demolições (ou poemas aritméticos)”, em 1988. Foi autor do livro de teoria “Poética e Visualidade – Uma Trajetória da Poesia Brasileira Contemporânea” (Ed. UNICAMP, Campinas 1991) e organizador de “Poesia Sonora – Poéticas Experimentais da Voz do Século XX” (EDUC, SP, 1992). Organizou, entre outras mostras, a exposição “Poesia Intersignos” São Paulo” (1988). Foi professor do programa de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC/São Paulo, tendo realizado a pesquisa de seu doutorado junto à universidade de Bolonha (1990). Sua tese de doutorado foi editada com o título: “A Crise do Passado: Modernidade, Pós-Modernidade, Metamodernidade”.  Philadelpho Menezes faleceu em um acidente automobilístico.” Ref. coletiva Web)

“Renato Cohen (Porto Alegre RS 1956 – São Paulo SP 2003). Diretor, performer e teórico. Pesquisador de arte e tecnologia, atuou em São Paulo desde meados dos anos 80, um dos diretores mais conectados às inovações multimídias e performáticas. Após realizar mestrado e doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP, com temas associados às técnicas da performance, Renato Cohen torna-se professor da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, respeitado como um especialista em tais domínios. Entre vários trabalhos, em 1997, avançando na pesquisa sobre as vanguardas históricas, cria Máquina Futurista, uma performance sobre arte e tecnologia, que integra a Mostra de Arte e Tecnologia do Itaú Cultural. O grupo de Renato Cohen torna-se um dos primeiros grupos brasileiros a realizar performances – em tempo real – para audiência na rede. Na mesma ocasião, com pacientes psiquiátricos, encena Ueinzz, Viagem à Babel, experiência limite com não-atores.” (Ref. Coletiva Web)

2 “A Cia Teatral Ueinzz é composta por pacientes e usuários de serviços de saúde mental, terapeutas, atores profissionais, estagiários de teatro ou performance, compositores e filósofos, diretores de teatro consagrados e vidas por um triz. Fundada em 1997 no interior do Hospital-Dia “A Casa” em São Paulo, em 2002 se desvinculou por inteiro do contexto hospitalar.”

** As atividades da Cia Teatral Ueinzz na 29ª Bienal: http://ht.ly/2Uwq0

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Série Releituras & Breves Comentários IV – ‘Conversas com historiadores brasileiros’ e ‘Usos & abusos da história oral’

8 jan

Por Gisèle Miranda


Em 1997, a historiadora Márcia Mansur D´Alessio [1] publicou Reflexões sobre o saber histórico e trouxe à historiografia brasileira sua bagagem de Ego-História através das entrevistas com os historiadores franceses Pierre Vilar (1903-2003), Michel Vovelle (1933-) e Madelaine Rebérioux (1920-2005).

Antes, o historiador Pierre Nora (1931-) publicou a coletânea Ensaios de Ego-História com entrevistas de consagrados historiadores franceses.

Creio que os resultados obtidos de uma década entre Nora e D´Alessio foram de extrema importância para a elaboração teórica. Dentre as variantes e problemáticas estão: narrativas, entrevistas, memoriais, registros do ofício do historiador e biografias.

Georges Duby (1919-1996) foi um dos entrevistados de Pierre Nora e o mais cético quanto aos bons resultados e do preparo do historiador para tal proeza. Ou seja, ser o investigado, o coletado, o sujeito histórico numa perspectiva autobiográfica e no vínculo com as práticas culturais, políticas, numa memória em devir, circunstancial, seleta e fugidia.

Quanto ao resgate biográfico da historiografia brasileira, francesa, inglesa ou de qualquer nacionalidade, chamo à escrita quinze historiadores brasileiros (poucos), trazidos pelos entrevistadores José Geraldo Vinci de Moraes (historiador) e de José Marcio Rego (economista), através do livro Conversas com historiadores brasileiros, de 2002.

E, para compor a discussão, o livro Uso & Abusos da História Oral, de 1996, organizado pelas historiadoras Marieta de Morais Ferreira & Janaína Amado.

“Conversas com historiadores brasileiros”

Para a proposta de breves comentários seria impossível ater aos quinze historiadores entrevistados do livro. Por isso fiz a dolorosa escolha de dois, fracionando tal e qual, os entrevistadores da seleção dos quinze. Mas, nem por isso deixarei de registrar nesse texto, os quinze historiadores brasileiros. São eles: Maria Yedda Linhares, Edgar Carone, Emília Viotti da Costa, Boris Fausto, Fernando Novais, Evaldo Cabral de Mello, José Murilo de Carvalho, Maria Odila da Silva Dias, Ciro Flamarion Cardoso, Luiz Felipe de Alencastro, Edgar De Decca (1946-2016), Angela de Castro Gomes, João José Reis, Nicolau Sevcenko (1952-2014) e Laura de Mello e Souza.

Diferentemente de Pierre Nora na organização das narrativas coletadas para a publicação Ensaios de Ego-História, – Morais & Rego  interferem em suas entrevistas. Fonte oral como um desafio a subjetividade de intelectuais de ambos os lados, num devir inacabado, e até num devir imperceptível, como diria o filósofo Gilles Deleuze. (1997, p. 11)

Intelectual incipiente ou intelectual coletivo, perguntaria Pierre Bourdieu (1930-2002) e, posteriormente Edward Said (1935-2003)?  Ou, biografia e as dificuldades de qualidade e publicações abundantes há anos e a maioria anacronicamente psicológicas pendendo ao mercado oportuno? (LE GOFF, 1999, p. 20) [2)

Diante dessas questões chamo à escrita a historiadora Maria Odila da Silva Dias, uma dos grandes nomes da historiografia brasileira (fui sua aluna em 1996/ PUC/SP).

Maria Odila teve uma larga trajetória na USP como aluna e pioneira do mestrado em história; aluna de Sergio Buarque de Holanda (1902-1982), Caio Prado Jr.(1907-1990), entre outros; foi titular da cadeira de História do Brasil até sua aposentadoria, e logo em seguida, atuante no quadro profissional da Pós-Graduação da PUC/SP.

Maria Odila da Silva Dias – foto publicada em Conversas com historiadores brasileiros, 2002.

Com toda a bagagem que lhe confere, Maria Odila sempre esteve aberta às novas discussões e autores. Traço este que me faz lembrar com admiração quando ainda sua aluna apresentei um seminário sobre Paul Zumthor (1915-1995), na época, autor muito respeitado no Departamento de Comunicação e Semiótica, porém pouco presente no Departamento de História, mas deveras importante para minha tese de doutorado (orientada por Maria Izilda Matos, orientadora também do mestrado) e, em discussões no curso de  Maria Odila;  Zumthor  pôde ascender à importância justificada, ampliada e, inesquecivelmente trabalhada com outros colegas.

Além do mais, Maria Odila é atenta aos pensadores da desconstrução como Foucault (1926-1984), Deleuze (1915-1995), Guattari (1930-1992), Derrida (1930-2006), Antonio Negri (1933-), entre outros. Por que? Porque os historiadores têm de manter um diálogo com os pensadores contemporâneos, para consolidar a consciência de sua inserção no mundo de hoje. (DIAS, 2002, p. 207. In: Conversas com historiadores brasileiros)

Também chamo a essa escrita outro grande nome: Luiz Felipe de Alencastro. (Infelizmente não fui sua aluna regular, mas estive presente em algumas de suas palestras).

O historiador Luiz Felipe de Alencastro (1946-) nas dependências da Sorbonne, em Paris, onde leciona. http://www.sequenciasparisienses.blogspot.com – Foto de Alcino Leite Neto, 2003. (Folha de S. Paulo)

Alencastro é professor titular da Universidade de Paris-Sorbonne na cadeira de História do Brasil. Como historiador e pensador escreve em periódicos sempre que solicitado à crítica. Ele foi aluno de ‘ Michel Vovelle, Paul Veyne (1930-) e amigo de Georges Duby’ . E como tal faz jus ao trabalho do historiador e seu difícil elo com a mídia – ainda parco entre os historiadores. Ou seja, o trabalho do historiador tem uma especificidade narrativa que deve ser assumida e refletida, não só entre os seus, mas além, interrogar e se fazer visível em outros espaços de ação. (Alencastro, 2002, p. 260. In: Conversas com historiadores brasileiros)

Hoje temos um bom termômetro intelectual dentro e fora do país. Rompemos com o gueto acadêmico da escrita. Todos gostam de boas histórias não há por que não gostarmos também de boa História. (CARVALHO, 2002, p. 175. In Conversas com historiadores brasileiros)

Usos & Abusos da história oral

Sob organização de Janaína Amado e Marieta Ferreira, a publicação está repleta de grandes pensadores, de muitas questões desde a fecundidade da história oral, práticas e estilos, balanço dos métodos ao longo dos anos, as potencialidades da oralidade junto à história e à memória; também sobre gerações, a escrita e a ausência dela, acervos de depoimentos ou a oralidade documentada.

No entanto, desde a publicação de Usos & Abusos muito se tem discutido a respeito da biografia, incluso como um retorno ao vazio ou mesmo sob a ilusão biográfica. O ´eu´ou o conceito? O juízo de valor ou a isenção?

Quanto ao labor do historiador-biógrafo compartilho a frase do saudoso teatrólogo Procópio Ferreira (1898-1979), que sugere flanar sobre retalhos catados aqui e ali, pacientemente, num mosaico de idéias e de episódios com comprometimento e propriedade. (BARCELOS, 1999, p. 12)

Armadilhas são percalços para qualquer área. Vácuos e disjunções têm que ser preenchidos à luz de pesquisas, reflexões, críticas, e mesmo, se necessário num mosaico de feixes ficcionais permitindo os encantos das utopias.

Como método, há também técnicas e suas utilizações podem provocar e povoar um arquivo ou acervo.  Evidentemente, a oralidade é um campo de forças que precisa ser administrado com a cautela necessária para que não fulgure como intervalo ou vácuo, e sim requerer sua gama como força existente e diferente – tal o exemplo da curta temporalidade das gerações e suas importantes contribuições.

Como crítica à história convencional, a história oral tem seu próprio corpo de embate. Mas se utilizada indiscriminadamente, pode romper ou fragilizar estruturas intelectuais, ou desconstruir, sendo alvo de pouco veracidade ou quiçá remeter a complexa ideia de uma dupla dimensão do real: a do mundo concreto e a do mundo dos textos. (AMADO& FERREIRA, 1996, p. XXI)

Entre usos & abusos cabe ao pensador, historiador, antropólogo, poeta… traçar potencialidades, seja via métodos, técnicas e o que mais puder acrescentar; e se exceder, saber aparar as arestas.

Referências:

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. (Org.) História da vida privada no Brasil 2 – Império: a corte e a modernidade nacional. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

BARCELLOS, Jalusa. O Mágico da expressão. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1999.

D´ALESSIO, Márcia Mansur. Reflexões sobre o saber histórico: entrevistas com Pierre Vilar, Michel Vovelle e Madeleine Rebérioux. São Paulo: Editora da UNESP, 1998.

DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. Tradução Peter Pál Pelbart. São Paulo: Ed. 34,1997.

DIAS, Maria Odila da SilvaA interiorização da metrópole e outros estudos. São Paulo: Alameda, 2006.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Tradução Eugênio Michel da Silva & Maria Regina Lucena Borges-Osório. São Paulo: UNESP, 1998.

FERREIRA, Marieta de Moraes & AMADO, Janaína (Coord.) Usos & abusos da história oral. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1996.

MORAES, José Geraldo Vinci de & REGO, José Marcio (Entrevistadores). Conversas com historiadores brasileiros. São Paulo: Ed. 34, 2002.

LE GOFF, Jacques. São Luis (biografia). Tradução Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Record, 1999.

LE GOFF, Jacques. São Francisco de Assis (biografia). Tradução Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Record, 2001.

MADEIRA, Gisele ou IGGNÁCIO, Gisele de Miranda. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um culturalista. São Paulo, 2000. 250 p. Tese (doutorado em história) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.

SAID, Edward W. Cultura e Política. Prefácio de Emir Sader; Tradução de Luiz B. Pericás. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003

THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Tradução Lólio Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.


[1] Fui sua aluna no mestrado em História da PUC/SP, 1993.

[2] Compraz com Le Goff sobre a carga particular da biografia: ´em meio à crise de mutação geral das sociedades ocidentais´ e refletindo sobre o sujeito na biografia – ´o sujeito globalizante – em uma procura utópica, por causa dos vácuos e disjunções que rompem a trama e a unidade aparente’, LE GOFF, 1999, p. 20-21.

Série Releituras & breves comentários III – ‘O novo século’ de Eric Hobsbawm e a ‘História e teoria social’ via Peter Burke

7 jan

Por Gisèle Miranda


Eric Hobsbawm era um historiador* com ares de profeta e pessoa atuante no pensamento contemporâneo. Por isso, O novo século: entrevista a Antonio Polito (de 2000) chegou como uma assinatura no tempo desse respeitado e reverenciado historiador.

Ele esteve algumas vezes no Brasil. Na Flip, feira de livros de Paraty, ele foi a estrela daquela deliciosa cidade que hoje, tombada e salvaguardada é considerada a cidade das letras.

Em 2003, ele concedeu entrevista em um dos grandes momentos do pensamento, do exercício e do ofício constante do historiador. Sim, os acontecimentos futuros precisam ter alguma relação com os do passado, e é nesse ponto que intervém o historiador. (Hobsbawm, 2000, p. 8 )

Peter Burke também é da grande safra. Historiador inglês que está comprometido com seu tempo, trabalha com a história cultural e  tem forte ligação com o Brasil – dos espaços acadêmicos à mídia com ensaios vigorosos a Folha de São Paulo – Caderno Mais!

E como lidar com as armadilhas do presente e do juízo de valores? Pelos empréstimos culturais e suas filtragens necessárias, segundo Burke. Aberto às diferentes vertentes teóricas – as exerce, as pratica. Sim, teoria social para historiadores e história para teóricos sociais – entre modelos, teorias e conceitos; aplica na escrita midiática como pensador contemporâneo e um admirador da Invenção da Tradição de Hobsbawm.i

Foto de Jean-Marc Bouju em março de 2003, pai abraçando seu filho em um campo de prisioneiros durante a guerra EUA x Iraque.

O novo século de Eric Hobsbawm

Sabemos que a história que Hobsbawm gostava era a analítica. Diante do que denominou de século breve, ou seja, o século 20, por que equacioná-lo entre 1914 (Primeira Guerra Mundial) e 1991 (colapso da URSS)? Por que não delimitar para análise ou descobrir pela análise o quão importante é o recorte?

Estes são questionamentos que Hobsbawm tirou de letra nessa entrevista. Assim como precisou nomear o século breve e seu fluxo tardio, também foi preciso discutir a globalização – seu processo, sua intensidade e, até mesmo, a homogeneidade da tecnologia nesse tempo que atropela e que desembocou no século 21.

Ao falarmos de cultura estamos também falando de política. E quem nega a diferença que há entre a esquerda e a direita está sem dúvida procriando um núcleo de direita, segundo Hobsbawm.

E como ficam as gerações mais novas com relação politização ou a despolitização? Parece um fato tanto quanto uma data. Porém, a terminologia pode neste século 21 ter outra característica e estar atrelada ao posicionamento de direita e esquerda. O que diferencia é a mobilização, que atualmente se distingue das gerações anteriores. Não há o grande e único mote, mas questões específicas – como drogas, meio ambiente, sexualidade e etc , mas contraditórias entre si.

A experiência é significativa. E, o que precede? Algo que tem de ser reinterpretado ou contornado a fim de se adequar a circunstâncias que obviamente não são como as do passado. (HOBSBAWM, 1998, p. 37)

História e teoria social por Peter Burke

Se por um lado Hobsbawm encontrou eco na palavra progresso para pensar a história e ampliar seu terreno e suas interferências junto a outras áreas, diria que Burke está do mesmo lado, mas com outras palavras.

Não há dúvidas quanto as diferenças de esquerda e direita, mas há no progresso, acessibilidade, recursos, técnicas e fios imprescindíveis para análises. Não há dúvidas também que ambos são comprometidos com o seu tempo.

Burke discorre com propriedade sobre diversas vertentes teóricas. Ao dialogar e aplicá-las, independente de serem específicas da história, cabe ao pesquisador experienciar. Se pertinente ao progresso do historiador – adaptar e testar modelos, teorias e conceitos constituem a marca tanto do bom historiador como do bom teórico. (BURKE, 2002, p. 230)

Para exemplificar, nada mais presente que as discussões sobre o conceito de cultura, que em 1950, foram aguçadas por cientistas políticos, antropólogos e historiadores.

À esfera da cultura, Burke trouxe-nos os problemas políticos de dominação e resistência. Essa socialização cultural também pode ser entendida como socialização política, isto é, os meios pelos quais o conhecimento, as idéias e os sentimentos são transmitidos de uma geração para outra. (BURKE, 2002, p. 111; 128)

Aberto a transmissão, tradição ou reprodução cultural, Burke exaltou o melhor dos historiadores, não relegando nem mesmo a questão poética da ficção no trabalho e análise do historiador, pois, ao depurarmos os elementos ficcionais em nossos documentos, poderemos atingir os fatos mais verdadeiros. (BURKE, 2002, p. 179)

(*) Eric Hobsbawm nasceu em 1917 no Egito (Alexandria) sob o domínio britânico. Ele faleceu em 01 de Outubro de 2012 em Londres  aos 95 anos.

Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) O novo século: entrevista a Antonio Polito. Tradução Claudio Marcondes. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

HOBSBAWM, E.; Ranger T. (Org.) The Invention of Tradition. Cambridge, 1983.

BURKE, Peter. História e teoria social. Tradução Klauss Brandini Gerhardt, Roneide Venâncio Majer. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

Sugestão Bibliográfica:

BURKE, Peter. (Org.) A Escrita da história: novas perspectivas. Tradução Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Paulista, 1992.

CARDOSO, Ciro F. & VAINFAS, Ronaldo. (org.) Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

COELHO, Teixeira. Dicionário crítico de política cultural. São Paulo: Editora Iluminuras, 1997.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) Sobre história. Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

HUNT, Lynn. A nova história cultural. Tradução Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

Fontes:

BURKE, Peter. Inevitáveis empréstimos culturais. Folha de São Paulo, São Paulo, 27 jul. 1997. Cad. Mais! p. 5.

Programa Globo News  Eric Hobsbawm.

Série Releituras & Breves Comentários II – ‘História e Memória’ por Jacques Le Goff e Déa Ribeiro Fenelon

6 jan

Por Gisèle Miranda


(Dedicado à Helenita Prado Lotti & Jozely Tostes )

Em continuidade à série releituras e ampliando as discussões sobre História e Memória – chamo à escrita o historiador francês Jacques Le Goff com sua obra  História e Memória publicada no Brasil em 1992, após dois anos da primeira edição francesa.

Para compor o diálogo proposto à série remeto as atividades do Departamento de Patrimônio Histórico dirigido pela historiadora Déa Ribeiro Fenelon, ligado  à Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, na época sob comando da filosofa Marilena Chauí.

O material impresso para essa discussão se deu a partir do Congresso Internacional Patrimônio Histórico e Cidadania em 1991, e com a presença do arquiteto, historiador e crítico de arte Giulio Carlo Argan. Em 1992 saiu a publicação O Direito à Memória: patrimônio histórico e cidadania.

Capa do livro: ‘O Direito à Memória’ (Tomografia de cérebro). Detalhe do cartaz de divulgação do `Congresso Patrimônio Histórico e Cidadania’ promovido pelo DPH/SMC – São Paulo, 1991.

História e Memória por Jacques Le Goff

Para trabalhar o conceito de história, Le Goff partiu da desmistificação do próprio conceito, para então pensar a história como problema. Ao problematizar surgiram: ´a história vivida, a história natural, a história como ciência (historiografia), história imediatista, a história dialética (passado/presente), história e memória, escatologia (religiões), história das representações, história das mentalidades ou do imaginário, história e símbolos (através da psicanálise e semiótica), história social, e o próprio mito como recusa da história.’

E mais, atentar-se as durações históricas – sejam de curta, média ou longa duração. Também, os silêncios da história, ou seja, a leitura/pesquisa realizada nas entrelinhas, de maneira crítica ou epistemologicamente histórica.

E a memória? São áreas de diálogos. E para tais, os vestígios são ordenados para que sejam realizadas as releituras.

E quando a memória não tem acesso à escrita? Por exemplo, quando parte de culturas selvagens donde se misturam mortos com vivos. A oralidade marca uma narrativa na forma de homens-memórias.

Um bom exemplo: via roteiro e direção de François Truffaut, a história dos homens-livros; a partir do texto ficcional de Ray BradburyFAHRENHEIT 451. Nessa história, as naves espaciais perseguem infratores da sociedade. Os livros são proibidos e quando achados são queimados, assim como os leitores infratores – como bruxos, tal como na Idade Média.

A única saída era: exilar-se na floresta dos homens e mulheres-livros. Proust, Voltaire, Gide, Sartre, entre outros, foram salvos pelas memórias desses guardiões e, consequentemente, transmitidos oralmente, dos mais velhos aos mais novos, dos enfermos aos vigorosos; cada homem ou mulher era um livro ou uma obra, e vice versa. O ato de resistência à sociedade de controle estava proferido.

Se resgatarmos historicamente: em 213 a. C. o imperador chinês Chi Huang-Ti fez sua queima de livros; em 303 d. C. Dioclesiano condenou os livros cristãos à fogueira; ou, o controle dos livros e leituras sob domínios e dogmas da igreja durante dez séculos; ou, em pleno século 20, sob a cultura do III Reich, em 10 de maio de 1933, Berlim… Paul Joseph Goebbels discursou durante a queima de mais de 20 mil livros… Freud, Steinbeck, Marx, Zola, Proust, Bertold Brecht…(MANGUEL, 1997, 315-6), entre outros.

Os documentos, monumentos (livros/atas/manuscritos/pinturas/fotos…), a escrita desse ensaio, o vigor tecnológico, são materiais da memória coletiva e da história. As formas são traduzidas por palavras, em suas funções espirituais do passado/tempo incorporados no papel, na pedra, no mármore, do projeto arquitetônico; ou seja, recordar e registrar. Fazer falar as coisas mudas e enxergar o encoberto.

Muitas vezes se faz necessário desconstruir, desmontar, desarticular para produzir a leitura e a escrita de documentos e monumentos, remetendo esse emaranhando para o campo da ciência histórica.

 

O Direito à Memória

Recordo o momento político surpreendente que se deu na cidade de São Paulo com a vitória da prefeita Luiza Erundina – mulher e nordestina – que estava longe de ser eleita, segundo institutos de pesquisas e de boca urna. (1990).

O efeito das políticas públicas culturais do Departamento de Patrimônio Histórico, e sua importante discussão com intelectuais de vários países sobre a questão do Patrimônio Histórico e Cidadania em 1991 estimulou o resgate das discussões sobre a criação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), de 1937, por intelectuais paulistas e mineiros, ou seja, pelos denominados modernistas, ou ainda, pelas vanguardas artísticas, priorizando a recuperação e tombamentos de estilos arquitetônicos, especialmente, o Barroco – colonial português, colonial brasileiro ou Barroco Mineiro, conforme discussões conceituais.

Se outrora houve esse empenho, de abrasileirar os brasileiros, logo depois houve o esvanecimento da proposta inicial. Então, nada mais significativo que resgatar o sentido gerador para reformular novas propostas.

Dentro dessas novas propostas estava, a democratização da produção cultural, segundo diretrizes da Secretaria Municipal de Cultura e do Departamento de Patrimônio Histórico, donde se priorizou a discussão que: cultura é mais do que as belas artes. É memória, é política, é história, é técnica, é cozinha, é vestuário, é religião etc… Onde é dado o sentido do tempo, do visível, do invisível, do sagrado, do profano, do prazer, do desejo, da beleza e da feiúra, da bondade e da maldade, da justiça e da injustiça.  (Fenelon, p. 31)

Dessa forma  foi implantado o sistema municipal de arquivos, inclusos projetos de história oral – que já havia sido germinado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC)[1], em 1975, e instituído na USP, em 1979, via Centro de Estudos Rurais e Urbanos (CERU), e pela pesquisa interdisciplinar da prof. Ecléa Bosi.

Além de reflexões críticas sobre a história de São Paulo, o Congresso Internacional sobre Patrimônio Histórico semeou a cultura como direito, via cidadania cultural, ou seja, a população tendo acesso e participação da política cultural.

Para isso, foram chamadas as deusas: Mnemosynes (memória) e Clio (história) ou seja, Remédio e Cura para os males do esquecimento e da vingança dos crimes do passado por um presente que redime.

 

Referências:

CUNHA, Maria Clementina Pereira (Org.) O Direito à Memória: patrimônio histórico e cidadania/DPH. São Paulo: DPH, 1992.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2 ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (coleção Repertórios)

Sugestão Bibliográfica:

ARGAN, Giulio Carlo. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

BAECQUE, Antoine de. & TOUBIANA, Serge. François Truffaut – uma biografia. Tradução Dau Bastos. Rio de Janeiro: Record, 1998.

BOSI, Ecléia. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: 1979.

BRADBURY, Ray. FAHRENHEIT 451. Porto : Público Comunicação Social, imp. 2003.

GILLAIN, Anne (Org.) O cinema segundo François Truffaut. Tradução Dau Bastos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. Tradução Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Tradução Lólio Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

TRUFFAUT, François. Os filmes da minha vida. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1989.

V. Tb. Filme:

FAHRENHEIT 451 (filme). Direção François Truffaut. França/EUA, 1996. 70 min., color., son., leg. português.


[1] Fundação Getúlio Vargas na cidade do Rio de Janeiro.

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