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SAD SÃO PAULO,TRISTE SÃO PAULO (uma anti bossa nova)

18 dez

por Byra Dornelles (Letra) & Miguel Dornelles (Direção de imagens, base eletrônica e mixagem / Gravado no centro de São Paulo, Praça da República e Metrô Santa Cecilia, 2013)

 

SAD SÃO PAULO, TRISTE SÃO PAULO (uma anti bossa nova)

ESTRELAS EU NUNCA VI

DA LUA OUVI FALAR

PORRA DE PASSARINHO

AQUI

NÃO GORJEIA COMO LÁ

AQUI TEM É URUBU E

POMBO INFECTADO

EU MORO EM SÃO PAULO

O SOL-QUANDO NASCE- EU

VEJO QUADRADO

A MINHA JANELA É CRIVADA DE BALAS

AQUI BARQUINHO NÃO VAI,

NEM BARQUINHO VEM

OS RIOS SÃO INAVEGÁVEIS

E EXALAM UM FORTE

CHEIRO PUTRIFICADO

PODRE, DE LIXO PARADO

EU MORO EM SÃO PAULO

QUANDO CHOVE, A CHUVA

ÁCIDA DESTRÓI

ESTÁDIOS, ARRASTA CASAS

LEVA CARROS EMPILHADOS,

CAEM METRÔS

EU MORO EM SÃO PAULO

EU MORO EM SÃO PAULO…

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Lembrar-me de esquecer-te (KANT)

11 mar

 

por Byra Dorneles

(Co-autorias: Byra Dorneles, Miguel Stavele & Robhison Crusoe. Direção: Miguel Stavele)

 

 

 

 

Aos berros ele corria pela praça Parobé. Não se sabia ao certo quem ele queria atingir mas no topo vinha a sociedade civil higienizada e a sua família, principalmente os caras das ruas, que tomam conta dos carros e vendem bagulhos malhados tentaram se intrometer.

Mas a questão era familiar e secular e os caras que vendem bagulho sarapa não tem moral nem valentia contra os insanos, os bêbados loucos da praça Parobé.

Minha covardia incompreensível me impedia de entender o todo tanta revolta espelhada e espalhada na minha cara… por fim, virei tudo aquilo que ele dizia mas nunca fui… virei tudo aquilo que ele dizia, que ele queria que eu fosse mas eu nunca fui: vitima, objeto de irracionalismo, a fragmentação da família ali, na praça Parobé e todos otários metidos a malandros parados pensando no ataque na praça Parobé.

Ele não sabia que homem algum chegou a ser realmente o que queria ou então ser completamente ele mesmo, mas, ali na praça Parobé aos gritos não era o local ideal pra se discutir isso levando assim, consigo, atitudes de um mundo primitivo.

E foi principalmente por não querer gritar as vezes grito no meu quarto porque não tenho radio e canto minhas canções. Alguma coisa dentro de mim dizia algo sem palavras por isso me calei deixando que a situação familiar se abatesse mais uma vez sobre mim espesso como um tijolo.

Ele não sabia que primeiro teria que se entender como homem, interpretar-se (na praça Parobé) somente a si mesmo e assim depois entenderia uns & outros.

Feito kant anotei na minha agenda: “lembrar-me de esquecer-te”.

“Ah esse obsessão de chegar… o terror de não vir a ser o que se pensa”.

Ver-a-cidade

31 mar

Byra Dorneles & Michelle Sill

 

(Poética sincera e declarativa sobre city-ações que influenciam diariamente movimentos-momentos e distrações tão relevantes da beleza de ser coadjuvante do furacão econômico, maior e melhor nos dias tão terminais de hoje)

 

Ver-a-cidade 

O ar irrespirável da tarde

Irrefutível -arde.
Cidade mutável
mutila
mata
musa o ar
que murmura a música
voraz das businas.

Cidade de notas
que numa vórtice auditiva
recrea nossos tímpanos
com seu lerdo tino.
Cidade fermata
em cores e prédios
mutante cidade.

Seu poder destrutivo
eterna pressa criativa
ufana a vida
que no bus entre os bairros alados
caminha sobre a bomba
e recebe no fim da tarde
a mijada garoa poluição.
São tiête é paulo
santa ilusão de verdade.

Olor frio exacerbado
paulicéia temperamental
paulicia
aqueles que vagam nos teus dias
e encontram-se nas tuas noites
as vezes cheias
as vezes vazias
e também aqueles
já cansados
que não tem tempo pra te gozar.

São Paulo’s

25 jun

por Byra Dornelles & Michelle Sill

 

 

 

Lugar de humores indecifráveis

saudade cidades de tantos

que circulam sem direção.

São Paulo é trash.

Indelicadezas, certeza, a de

se perder nessa civilização…

Passageiros no trem sem destino

santo poluição,

nutre a massa de calor parada

pressa presa nos prédios infinitos.

Atirar-se em direção ao chão talvez,

Mas em que céu escolher cair?

Sem vento

sem tempo

feliz, fumando o ar triste

buscando solução inexistente

eu sou toda cidade carente.

No oeste o sol só deita

não nasce e todo dia é sexta

E todo dia é sexta eu bem sei.

Significa- ação

11 maio

Fotografias de Cícero Leitão

(Curadoria e texto de Lia Mirror)


Quando as borboletas começarem a partir é sinal que alguma coisa aconteceu… talvez os ventos… remoinhos…Talvez a chuva… tempestade. (Cícero Leitão)

 


Cícero partiu. Mas retornou para fotografar reminiscências de Juá, no município de Itaueira, Piauí. Ao passar por ali viu dois passarinhos.

Cícero Leitão, Meninos, 2010/2011

– “muitos passaram, mas eu passarinho” (disse o mais travesso reverberando Mário Quintana)

A passarinha maior fitou aquele olhar que diz, como outrora disse a menina afegã, que Steve McCurry registrou em 1985.[1]

A lavadeira do rio Itaueira canta e se encanta com Cartola!

“…Ensaboa mulata, ensaboa
Ensaboa. Tô ensaboando…
Tô lavando a minha roupa!…”[2]

Cícero Leitão, Lavadeira do Rio Itaueira, 2010-2011

Quando se olha por todos os lados… seu Benvindo sorri e pica o fumo como os Caipiras de Almeida Jr. Mesclando o final do século 19, sob tintas e pincéis; e sob o olhar em preto e branco do século 21.

Cícero Leitão, Bem-vindo! 2010-2011

Meus olhos  (agora ) são seus olhos!

Dona Coló em seus vividos 97 anos recita Cora Coralina: Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.

Cícero Leitão, Dona Coló, 2010-2011

Lá em Itaueira “passou um sábio. Depois um soldado e mais tarde um homem do povo. Sucessivamente ocuparam o horizonte um poeta, um leão, um tigre e um pequeno redemoinho de areia… ” (Klintowitz, Significação, 1982)


[2]  Cartola com sua filha Creusa cantam Ensaboa


Série Cartas (ensaios) de leitores I: Gontran Netto, o Diógenes da pintura brasileira

2 mar

Por Maria Aparecida Correa Paty (Paris/FR)

(poetisa e tradutora)

 

Não creio que se possa conhecer Gontran Netto sem se interrogar sobre o sentido de sua própria vida. Esse homem de uma simplicidade radiante (bouleverse) faz de sua vida uma arte – vivendo cada dia com estilo que transmite à sua pintura a seiva, a força, o sangue da cor da vida.

Arte e vida se casam como em uma língua e o paradigma ao realizaem no sintagma a vida em potência que  torna-se ato concatenado em uma explosão de luz.

Cores e formas (épousent) na linha de um horizonte provável, onde a significação dá a luz literalmente.

Diógenes Laércio afirmou que Platão teria dito: se os velhos pudessem correr, eles também poderiam fazer filosofia. E eles não podem. Na Grécia morria-se muito jovem pela paixão heróica. E a paixão basta experimentá-la para se dar conta que, se ela atesta um desejo infinito de vida leva-nos à fadiga e à impotência da morte.

Correr para Gontran Netto, aos seus 81 anos, é talvez, entreter o movimento. Movimento do corpo que acende o espírito. Do espírito que capta a dança dos corpos, pés e mãos tão firmemente implantados a terra em ação permanente: momentum.

Arranjos em bouquets de pesados ajuntamentos de cana de açúcar trabalham o homem. A força vem da terra e do homem que nela vive e cria; e da vida que seu olhar ilumina quando ele busca esse horizonte provável e se choca: o corpo inteiro treme; os dedos imantados nos campos de trabalho mundo afora e o olhar bravio desafiando a cerca de arame farpado, signo de limites, fronteiras e perversidades. Sem nome, o olhar emite a energia da luz opaca, quase branca, concentração de todas as cores que explodem nesse apelo irresistível do ´Não´, como nos lembra Carlos Drummond de Andrade.

É a força que dos pés às mãos constrange os dedos a encerrar como entre os dentes, os pontiagudos (barbelés) arames farpados que protegem as propriedades.

Gontran Guanaes Netto, série Les Damnés de la Terre, 2000-2001

Em nossos dias dizem que fronteiras não existem mais, e que o último muro caiu em 1989. A arte tornou-se biotecnologia, transumana. As modas sucedem, mas Gontran Netto continua a correr e a entreter o movimento do mundo em que todos os Raimundos continuam a dançar em comunidade anônima – enxadas, pás e cestos de colheita – o olhar fixo nas cercas de arame e no sonho de Diógenes, o filósofo: liberdade.

DRUMMOND

27 fev

por Byra Dornelles

 

(filmado por Michelle Sill)

Local: mercado Roldão da Corifeu – USP/Sampa*

* Freaks foram interpelados pelo segurança.

 

 

Com a lingua portuguesa eu descobri o mundo
Acordei a princesa
Acendi a chama que ardia dentro de mim

Carlos Drummond de Andrade

Das andadas
Me indicou o caminho do meio
Da rua
O jeito de rebolar
De sacudir as ancas
De acabar com toda essa ansiedade
De fechar os olhos prá essa realidade
Que estão querendo nos vender, nos vencer

Mas luto

Escrevo no papel

Foi Luiz Carlos Maciel quem me aplicou
Juntamente com todo lirismo e beleza
Da lingua portuguesa

Ode & Amor a SP

6 dez

Por Byra Dornelles


Tendo como referência a prosa livre de Jack Kerouac e a poesia visceral de Torquato Neto – o Freak Out Muzik sofre influência nata de alguns trabalhos de spoken words do mundo como Saul Wiliams, Gil Scot Heron e do brasileiro Tavinho Teixeira.

Freak’s:

Byra Dorneles – Vocais
Miguel Stavele – Bases e Produção
DJ Robhinson Cruzoé – Turn Table

(filmado por Georgete Bueno)



Poema Ode & Amor a SP por Byra Dornelles

(Para Xico Sá )


Entre gritos e Ipiranga esgoto a céu aberto

na Augusta e paulistas

os punks as putas os travas os emos
as anfetas as bolas balas todos os vicios e delicias

na consola a desolação, tantos rios pequenos.

Esse cheiro de borracha queimada!!!
E esse cheiro de borracha queimada!!!!

O desespero das filas no roldão a perda da individualidade
a massa nas filas dos metrôs a previsibilidade das massas
a massa e à inércia passiva

a exclusão do amor o apito das fábricas
mutante cidade excitante cidade

ambientes áudio-confusos!
ambientes áudio-confusos!

A impossibilidade prática de ser feliz com tantos automóveis
eles invadiram a simples-cidade

os proto-bandidos de quinta na Corifeu suburbia
o tráfico acéfalo, sem comando, desorientado
o tráfego desorientado

O que Deus fazia antes de criar São Paulo?
O que Deus fazia antes de criar São Paulo?

O QUE DEUS FAZIA ANTES DE CRIAR SÃO PAULO?

O QUE DEUS FAZIA ANTES DE CRIAR SÃO PAULO?

O encontro nas cores/luz: Gontran Guanaes Netto e Julio Le Parc

13 ago

Por Gisèle Miranda


Há entre eles um pacto de arte e política. Em Cores da Esperança’, o poema cores/luz  escrito por Julio Le Parc a Gontran Guanaes Netto também foi assinado por Guanaes Netto a Le Parc: uma inversão na escrita como reafirmamento artístico e político. Entre eles há lutas geracionais.

O argentino nascido em Mendoza, Julio Le Parc, recusou-se a participar da Bienal de Arte de São Paulo em 1964, em protesto ao golpe militar no Brasil que perdurou por mais de vinte anos. Le Parc tornou-se cidadão de dupla nacionalidade franco argentino em função de suas atividades políticas; passou por prisões e desterrou-se para sobreviver. Sabemos o que aconteceu durante esse período: muitas mortes, torturas, sequestros de crianças que foram criadas por seus algozes. As mães, hoje, são as avós de Plaza de Mayo, são aquelas que procuram por seus filhos através de seus netos.

Gontran Guanaes Netto, filho de camponeses foi assistente de Portinari. Tornou-se um cidadão de dupla nacionalidade – franco brasileiro. Depois de algumas prisões conseguiu sobreviver e foi ao encontro da arte política. Em Paris conheceu seu companheiro de cores; na França ambos foram membros fundadores da Brigada Internacional anti-fascistas.

No Brasil, a documentação deste período foi (recentemente) discutida através da Comissão da Verdade.

Gontran Guanaes Netto, série Les Damnés de la Terre, 2000-2001.

Gontran Guanaes Netto e  Julio Le Parc fazem parte do coletivo que pintou Sala Escura da Tortura com relatos de frei Tito de Alencar, entre outros. Ambos são as cores do poema abaixo:

As cores (Luz) da Esperança

Quando o ser humano vem a ser cores,

Quando a cor vem a ser forma humana,

Quando o ser humano este ligado à terra,

Quando o camponês da terra faz brotar seus frutos,

Quando estes frutos são usurpados,

Quando esta usurpação gera a miséria,

Quando esta miséria gera revolta,

Quando esta revolta é reprimida,

Quando esta repressão obedece a uma ordem,

Quando esta ordem é a ordem dos outros,

Quando estes outros acrediam ser proprietários do mundo,

Quando este mundo se mundializa em detrimentos da maioria,

Quando esta maioria, eles os camponeses, vem a ser os  ‘Damnés de la Terre’.

Quando Netto (Le Parc) com sua caixa de cores está presente,

Quando eles ‘ Les Damnés de la Terre’, estes camponeses (desaparecidos) brasileiros (argentinos), mesmo na pior situação, carregam neles, extremamente e internamente suas cores,

Quando suas cores são aquelas da dignidade,

Quando suas cores são aquelas da luta,

Quando suas cores são aquelas da esperança,

Quando suas cores são aquelas da alegria que não se deve apagar,

Quando na caixa de cores de Netto (Le Parc) passa a ser ativa,

Quando suas cores passam a ser militantes, mas autônomos, elas fazem sua revolta,

Quando esta revolta em cores vai ao encontro da justa revolta ‘ Damnés’,

Quando a mesma não passa pelo miserabilismo, nem pela obscura e sombria derrota, nem pela prostração e aniquilamento, mas sim

Pelo desejo e o direito à vida – As cores estão presentes,

Quando estas cores estão presentes no olhar de Netto (Le Parc), no seu coração, na sua primeira sensibilidade, na sua cabeça

Que põem em ordem, as cores passam a ser forma e fé no homem,

Quando tudo que está ancorado no mais profundo de seus ‘ Domnés de la Terre’ e no Netto- Le Parc, Pintor – homem, é evidente que venha a ser figuração,

Quando estão pela intermediação de Netto-Le Parc, com esta forte presença – cor, nós não podemos nos esquivar e nós somos também fortemente envolvidos,

Quando esperança não desaparece, quando a esperança cresce os quadros de Netto-Le Parc permanecem.

Julio Le Parc, Série 14-5E Acrylico sobre lienzo 171 x 171 Cm 1970

 

(*) datado: “Cachan 14 de haneiro de 2002  Julio Le Parc”

Série Paschoal Carlos Magno II: “Sol sôbre as palmeiras”

12 jul

Por Gisèle Miranda

 

Vou Paschoalando pelas ruas… Dom Quixote aparece sem auréolas, simplesmente como um ser humano, cuja justificação – é preciso dar-lhe alguma? – é de não ser unilateral, mas de alma que se renova com a fôrça universal de cada sonho. (MAGNO, P. C., 1969)

Paschoal ou Lúcio?

“Sol sôbre as palmeiras”(1962) foi o segundo livro de Paschoal Carlos Magno; é um romance histórico e autobiográfico com espacialidade delineada pelo morro de Santa Teresa ou morro Paula Matos, na época, bairro de ostracismo da cidade do Rio de Janeiro.

Lúcio – personagem central. Seu Chico, o pai, autodidata e criador do teatro da família Carlos Magno. Ele lia para os filhos e descrevia o que imaginava ter visto. Quando titubeava, no dia seguinte retornava ao assunto após pesquisas.

Dona Josefa, a mãe fervorosa em sua religiosidade que explicitava nos cômodos da casa imagens de santos católicos. No dia a dia, a compra fiado do pão, inadimplência dos alugueres, mas a cumplicidade junto ao marido à compra de muitos livros e, até: de Madona à Duse – sementes do Teatro Duse:

Seu pai é doido… substituir a Madona por um retrato de atriz… – Não o leve, mamãe… Veja: (Lúcio apontava à Duse) – tem um ar de Madona. E nessa noite Lúcio não se espantou de encontrar acesa a lamparina junto do retrato de Eleonora Duse-Checchi (1858-1924). Nessa noite e daí por diante. (MAGNO, 1922, p. 20-21)

Elenora Duse-Checchi, s/d

Em 1947, a atriz Henriette Morineau durante a famosa Concentração do Teatro do Estudante, sequenciou a crença do Teatro do Estudante celebrando e glorificando a madona Eleonora Duse: …com os olhos enevoados… abriu a bolsa e tirou uma nota que depositou no chão de veludo escuro do altar. (Jornal Correio da Manhã, 31 jul., 1947.)

Elenora Duse-Checchi, 1922

A atriz Eleonora Duse esteve no Brasil em 1885. A cidade do Rio de Janeiro foi a primeira de sua carreira internacional.  Mas o grande público da “prim´attrice assoluta” ainda não existia nos trópicos. Ressentida com poucas palmas, cadeiras vazias e, apesar das notas de jornais de alguns admiradores, deixou registrado:

um grande, grande teatro… murmúrios ininterruptos na platéia e nos camarotes, do princípio ao fim da peça… eles não conhecem de minha voz senão uma parte infinita e miserável, sem falar das dificuldades da língua (minha doce língua italiana, ao lado dêsse português tão rude, e do brasileiro ainda pior… (trecho da carta enviada por Duse à Mathilde Serao; carta publicada em A vida de Eleonora Duse, de Max Reinhardt)

Duse retornou ao Brasil em 1907. Desta vez, ovacionada pelo público, porém mais amargurada do que nunca. Sequer concedeu entrevistas, isolando-se até dos amigos, atitude que encolerizou Arthur de Azevedo:

Duse, a inacessível Duse, que fugindo a reportagem e aos Kodaks, torna-se quase um mito… neurastenia? aborrecimento?… vaidade? orgulho? ou desprêso de Deusa para com os míseros mortais?  (ABREU, 1958, p. 15)

Quem foi Eleonora Duse para Paschoal Carlos Magno? Não apenas a capacidade imensurável às interpretações, mas a figura imponente de mulher, sua trajetória de vida determinada pelo mambembe – em qualquer lugar e em qualquer hora. Princípio este que articulou as bases do Teatro do Estudante do Brasil, as Caravanas e Barcas da Cultura, Teatro Duse e Aldeia de Arcozelo.

Para Paschoal, as reações adversas de Duse no Brasil deveu-se a pressão de um momento pessoal desesperador – do falecimento do ator de sua companhia (e também seu amante esporádico) Arturo Giotte, acometido de febre amarela pouco depois de desembarcar no Brasil em sua primeira tournée. Além, é claro, da pouca receptividade do público brasileiro.

 

 

Referências

ABREU, Brício. Eleonora Duse no Rio de Janeiro (1885-1907). Rio de Janeiro: MEC, SNT, 1958.

MIRANDA (ou MADEIRA), G. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um culturalista. São Paulo: 2000. Tese (doutorado em História) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.

MAGNO, Orlanda Carlos. Pequena história do Teatro Duse. Rio de Janeiro: SNT, 1973.

MAGNO, Paschoal Carlos. Tempo que passa. Rio de Janeiro: s/ed., 1922.

_____________________. Sol sôbre as palmeiras. Rio de Janeiro Letras e Artes, 1962.

_____________________. Não acuso nem me perdôo: diário de Atenas. Rio de Janeiro: Record, 1969.

_____________________. Poemas do irremediável. Rio de Janeiro: Cátedra, 1972.

_____________________. Tudo valeu a pena. m.s, s.d.

REINHARDT, Max. A vida de Eleonora Duse. Rio de Janeiro Livraria José Olympio Editôra 1940.

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