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Série Retecituras V: Gontran Guanaes Netto e o seu manifesto pelo Chile

17 ago

Por Gisèle Miranda & Gontran Guanaes Netto


A Série Retecituras nasceu pelo revigoramento da escrita, em seu devir inacabado, também rememorado e retecido. Uma aula de história, arte e política.

O tema desse devir maturado é o Museu de Solidariedade Salvador Allende – que  nascido político teve fases significativas de suas obras.

Antes do golpe militar no Chile, o Museu foi pensado entre 1971-72, por Salvador Allende e contou com participação, entre outros, do crítico de arte brasileiro Mario Pedrosa.

Durante a ditadura militar do Chile, iniciada em 11 de setembro de 1973, as obras doadas tinham o intuito de reafirmamento/reconhecimento da luta externa contra Augusto Pinochet e por solidariedade ao Chile livre. Mesmo sob repressão, o Museu Salvador Allende resistiu.

Quando o Chile resgatou a sua democracia o Museu foi revitalizado por intermédio da Fundação Salvador Allende e com a participação do artista e curador brasileiro Emanoel Araújo.

Para selar a parceria Chile-Brasil, reconhecida desde o início do projeto do Museu, além de Mario PedrosaEmanoel Araújo, também estiveram presentes Gontran Guanaes Netto, Antonio Henrique Amaral, Lygia Clak e inúmeros artistas de outras nacionalidades.

Emanoel Araújo assinou a mostra itinerante de cento e trinta obras selecionadas das duas mil obras do Museu Salvador Allende, denominada: Estéticas, sonhos e Utopias dos Artistas do Mundo pela Liberdade que ocorreu na Galeria de Arte do SESI de São Paulo de março a junho de 2007.

Um ano antes da exposição recebi um e-mail para avaliação da obra doada por Gontran Guanaes Netto, de 1973[1]. Contudo, o mais importante a saber sobre a obra – depois de ter conversado com o artista Gontran Netto foi que a obra designada no e-mail estava `sem título´. E que a obra chama-se La Prière (A Oração)

Gontran Guanaes Netto, La Prière, 1973, acrilico s/ tela 97 x 130 cm.

Gontran Guanaes Netto (1933-), La Prière, 1973, acrilico s/ tela 97 x 130 cm.

Dado o nome à obra comparecemos Gontran Netto e eu à abertura da exposição: Estéticas, sonhos e Utopias dos Artistas do Mundo pela Liberdade.

No mais, deixo o manifesto de Gontran Guanaes Netto e as considerações finais:

“Foi com surpresa que recebi o convite para a inauguração do Museu Solidariedade Salvador Allende. Julguei como certo que minha obra não estaria inclusa neste Novo Museu. A surpresa maior foi ver o meu quadro com a designação “obra sem título” – o que tirou o significado irônico da obra: Nixon (Estados Unidos) e Pompidou (França), presidentes de duas potências durante a guerra na República do Vietnã (1959-1975, Vietnã X EUA)

A obra chama-se La Prière (A Oração). Tema escolhido para ironizar a atitude de ambos diante da história; ambos implicados na guerra do Vietnã. Preocupado revirei papéis antigos e a dar voltas com à minha consciência.

Seria válido estar presente em uma exposição no coração do sistema e movido ao preço de um equívoco histórico, e sendo eu testemunha – vivido com ardor e entusiasmo – participando e assinando documentos que contrariam a atual apresentação do Museu?

O golpe do Chile consternou a Europa e, especialmente, a França que naquela época se preocupava com as perspectivas democráticas via eleições. As tendências de denúncia e resistência eram intensas.

Participei da exposição Viva Chile, na galeria Dragão, em Paris; com a venda dos quadros doados angariou-se fundos para retirar pessoas em situação de risco do Chile. Nós, os responsáveis pela iniciativa: Julio Cortázar, Le Parc, Cecília Ayala e eu, além da colaboração de Roberto Matta. No momento do golpe estávamos em Havana e assinamos o Manifesto Setembro 73, contra o golpe de Augusto Pinochet.

E fundamos a Brigada Internacional de Pintores Antifascistas quando recebemos o convite da Bienal de Veneza e apoiamos a greve de doqueiros venezianos que recusaram-se a carregar armamentos para o Chile de Pinochet. 

A Brigada era composta por quinze artistas de diversos países. Além de considerar-me partícipe com outros artistas da criação do Museu contra Apartheid, Museu da Palestina e Museu da Nicarágua. Isso não foi ou é utopia. Agora é história e memória.

Parte da obra coletiva do Grupo Denúncia: Gontran Guanaes Netto, Jose Gamarra, Julio Le Parc e Alejandro Marco a partir de relatos de Frei Tito Alencar, 2m x 2m, óleo s/ tela, início dos anos de 1970/ Exposição Sala Escura da Tortura

Só me resta dizer:

Arafat não pertencia a sua família, senão ao povo palestino.

Salvador Allende pertence ao seu povo e sua morte representou um inequívoco ato de Resistência.

Eu vejo os Museus atuais desodorizados, esterilizados e protegidos de manifestações.

Meu único patrimônio ainda é a minha consciência: Ancien combatant, jamais.”

Referências:

GUANAES NETTO, Gontran. Manifesto. Manuscrito,  Itapecerica da Serra, outubro de 2007.

MOLINA, Camila. Preciosidades que chegam do Chile: Mostra reúne parte do Museu Salvador Allende, formado por doações de artistas do mundo todo. Jornal O Estado de S. Paulo, 19 de março de 2007, Caderno 2, D-3

Filme: 11 de Setembro (11’09”01), 2002 (França). Direção: Youssef Chahine (segmento Egito) , Amos Gitai (segmento Israel) , Alejandro González-Iñárritu (segmento México) , Shohei Imamura (segmento Japão) , Claude Lelouch (segmento França) , Ken Loach (segmento Reino Unido) , Samira Makhmalbaf (segmento Irã) , Mira Nair (segmento Índia), Idrissa Ouedraogo (segmento Burkina-Faso) , Sean Penn (segmento Estados Unidos) , Danis Tanovic (segmento Bósnia-Herzegovina). Onze diretores e onze curtas sobre 11 de Setembro; o inglês Ken Loach assinou o curta sobre o 11 de setembro de 1973 do Chile.

Exposição: “Sala Escura da Tortura”. Coletivo sobre as torturas na América Latina. Museu do Ceará, Fortaleza, 2005. Curadoria Edna Prometheu. Exposta a primeira vez no Museu de Arte Moderna de Paris, em 1973, seguindo para exposições na Itália, Suíça, Alemanha e Brasil.

Sobre Gontran Guanaes Netto, e imagens avulsas em outros textos do blog Tecituras.

Sobre obras brasileiras do Museu de Solidariedade Salvador Allende: Imprensa Oficial publica livro com obras brasileiras doadas para o Museu da Solidariedade Salvador Allende


[1] Paula Maturana, Coordinadora MSA – Museo de La Solidariedad Salvador Allende, em 26 de abril de 2006  – “Avaluo obra de Gontran Netto perteneciente al Museo de la Solidariedad Salvador Allende”

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Série Retecituras IV: Guerras (parte III)

31 mar

por Gisèle Miranda


Embora eu tenha a licença de trabalhar o contemporâneo via historiadores – e de maneira intrínseca o faço – também recorro às vertentes artísticas: experiências necessárias à reflexão e à escrita[1].

Dessa forma, o conceito anticlássico de Giulio Carlo ARGAN se adéqua as questões tratadas na Série ReteciturasGuerras: “o antigo como pluralidade de dados particulares que podem e devem ser revitalizados numa prática contemporânea que os recrie, acrescentando-lhe o sentido de distanciamento histórico”.

Esse sentido de distanciamento histórico cumpre um papel de subjetividades próprias. Do decorrer da Guerra Fria (1945-1991) as duas potências – EUA e a ex. URSS, atual Rússia, estiveram envoltas às guerras por questões étnicas, religiosas, cobiça de oleodutos, poderio de armamentos. Frente a isso, em 29 de março de 2010, duas mulheres bombas – ditas terroristas – acionaram suas bombas caseiras acopladas aos corpos nas estações do metrô em Moscou. E, quem não se lembra da morte de 184 crianças e 344 civis em uma escola na cidade de Beslan  (Ossétia do Norte), em 2004?

Marina Abramovic, The Family III, série LAOS, 2008

Os denominados terroristas da Tchetchênia, ou, os separatistas vêm em regulares lutas -de 1994 a 2003 – 150 mil mortes. E quem são os culpados? Em 1999, o premiê Vladimir Putin decretou uma ofensiva militar para controlar os estados que queriam independência. E o que há nesses estados? – além de oleodutos?

A Rússia havia garantido a autonomia da Geórgia (desde 1994), mas em 2008, o presidente georgiano – Mikhail Saakashvili[2]– guerreou com a Rússia, logo após o reconhecimento da independência da Ossétia do Sul –, pelos russos e em território georgiano.

A Geórgia deflagrou uma invasão aos ossetianos do Sul e Abkházia, culminando nessa ofensiva dos russos em território georgiano, em pleno Jogos Olímpicos de Pequim, na China em 2008, transmitidos concomitantemente: – quem não lembra?

Entre ex URSS, hoje Rússia, e ex Iuguslávia, hoje Sérvia  (de 2003 a  2006, Sérvia  e Montenegro) – há muito em comum, além da região do Cáucaso, entre tchetchenos, georgianos e ossetianos do Sul. As independências/nacionalizações de estados procriaram uma limpeza étnica.

No início da década de 1990, entre sérvios e croatas foram mais de 20 mil mortos. No final da década, Kosovo (minoria sérvia e maioria albanesa) aumentou esse número estimativo, quando em 2008 se declarou independente da Sérvia.

Vale relembrar, entre outros, o filme de Jazmin Dizdar (Bósnio que naturalizou-se britânico): Beautiful People, de 1999. No filme são focadas 4 famílias na Grã Bretanha e suas relações com refugiados de guerra da Bósnia, ou seja, sérvios e croatas, outrora vizinhos e amigos e no exílio, inimigos étnicos sob olhares dos ´civilizados´ britânicos que os acolheram – nasceu então, Caos, o filho do estupro – crime como armas de guerras[3].

Em 2000, Slobodan MILOSEVIC, ex presidente sérvio foi preso por crimes de guerra – limpeza étnica, proclamador do lema: ´você pode´. Ele morreu em 2006, sem nenhum sinal de arrependimento. Em 2008, Radovan Karadzic ou Dragan Dabic, outro líder sérvio, assassino em potencial foi encontrado na ativa da limpeza étnica. Estava seguro do funcionamento da limpeza: “Converta-se à minha nova fé, multidão/ Eu lhe ofereço o que nunca ninguém teve antes/Lhe ofereço inclemência e vinho…Povo, em minha fé nada é proibido/ Há amor e há bebida… E essa divindade não proíbe nada” KARADZIC.

A outra potência fruto da Guerra Fria, os EUA, vêm seguidamente sendo bombardeados pelos ditos terroristas, embora não tenha se dissipado territorialmente, mesmo porque ainda se faz reconhecer pela capacidade militar (vide as atuais guerras com o Afeganistão e com o Iraque).

Mas há vencedores inesperados, ainda diminutos, deslocados aqui e ali, via ´participação de populações por todo o mundo através de passeatas pela PAZ´. É pouco? É inesperado. Mas receio, tal como os historiadores  Eric Hobsbawm e Luiz Felipe Alencastro, entre outros, que as prerrogativas são aterrorizantes, visto que há uma elevação da direita política em alguns países, donde se imprime pouca ou irrisória participação no voto popular, e onde a participação popular tem se reduzido as lutas particulares, apesar da globalização. Oxalá o inesperado venha com sua potência surpreender-nos, mais que o CAOS e os filhos que não retornaram – ou seja, marcas de gerações da guerra e pós guerra.

(*) Referências: V. bibliografia completa da Série Retecituras IV, parte I https://tecituras.wordpress.com/2010/03/15/serie-retecituras-iv-guerras-parte-i/ ).

(**) Marina Abramovic é Sérvia radicada nos EUA.


[1]Variações conceituais moderno/pós moderno/ contemporâneo por autores ligados as artes. Exemplos: Giulio Carlo ARGAN Revitalização/recriação. Aracy AMARAL “modernidade é a crítica!”; Philadelpho MENEZES: moderno – presente transitório ou metamodernidade (auto crítica), pós moderno – eixo da tecnologia; Clement GREENBERG: modernidade – não há rompimento é transição; Arthur DANTO: 1400 (início)/ 1980 (fim) – moderno de 1880 até 1960, era dos manifestos; Hans ULRICH: moderno – nascimento da idéia de subjetividade, o novo mundo; Alberto TASSINARI: moderno – depuração (1955 ou 1960), contemporâneo é igual a pós moderno (uso acadêmico); Rodrigo NAVES: pós moderno é o olhar sobre a cidade.

[2] Mikhail Saakashvili – neo liberal e pró-norte americano, que companheiramente enviou ao Iraque 2.000 soldados para ajudar quem lhe apoiava como estado independente.

[3] V. Série Retecituras II: marcas – mãe e armas de guerras https://tecituras.wordpress.com/2010/03/08/marcas-mae-mulher-prostituta-e-armas-de-guerra/. V. Tb. sugestão fílmica Genghis Khan – filho, marido, pai via armas de guerras (estupros).

Série Retecituras IV: Guerras (Parte II)

18 mar

Por Gisèle Miranda

Há pouco o indestrutível sionismo dos EUA admitiu, através de Hillary Clinton, que a culpa ocidental pelo antissemitismo esteja cegando o discernimento no conflito entre israelenses e palestinos. Que outrora as vítimas tornaram-se algozes, ou seja, os palestinos são, como dizia o intelectual Edward Said  “vítimas das vítimas”.

Pena que o palestino Edward Said (falecido em 2003 aos 67 anos) defensor do papel público do intelectual  não tenha ouvido que as “gerações de americanos cresceram pela propaganda de que os árabes são terroristas”,  e ponto!

Portanto, a ‘segregação’ de expropriados palestinos em 1948 (aproximadamente 750 mil), em 1967  transformou-se de fato, em apartheid, e que vigora aos olhos do mundo em 2017.

Marina Abramovic, Balkan Baroque, 1997

O cineasta israelense Amos Gitaï em seus esforços vem se opondo a omissão. Com Kedma, Amos Gitai venceu o prêmio da crítica na 26ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2002. Kedma é o nome do cargueiro que transportou, em 1948, os sobreviventes do Holocausto até a Palestina (alguns dias antes da criação do Estado de Israel).

Cabe destaque do personagem sobrevivente judeu, professor de história que quando pensou ter chegado à terra prometida, se viu cercado por soldados ingleses; ele fugiu em grupo e encontrou outros pequenos grupos e se viu novamente lutando para sobreviver, desta vez contra os ciganos e depois de árabes.

Na estrada de terra sobreviventes cruzam com sobreviventes inimigos e fogem uns dos outros, não mais com a força bruta, mas com a força da palavra. É a trégua obrigatória. Trégua também quando um velho Palestino ‘escreve’ pela palavra gritada e levanta o seu cajado pelo futuro de seus descendentes: a certeza de que seus filhos, seus netos, seus bisnetos jamais deixariam aquela terra que lhes pertence.

Volta a cena o professor de história. Ele está na sujeira, no vazio da fome, fugido dos nazistas alemães, dos ingleses, dos árabes, e na incerteza, ele grita, espuma a baba dos insanos, de quem já não entende nada. Ou seja, Gitaï em ´seu ato de coragem´ e na ´voz dissonante contra o consenso da guerra´.[2]

De lá para cá, Israel tornou-se uma potência nuclear e os palestinos com pedras e cajados, com bombas caseiras acopladas em seus próprios corpos: homens, mulheres, adolescentes, crianças continuam lutando por sua identidade – seu Estado de Direito.

São gerações que compartilhamos hoje, em frequências virtuais. Gerações de famílias, lastros territoriais, culturais; um vínculo globalizado que não pode ser ignorado.

São gerações que rebelam às nossas gerações e que vigoram no exercício do presente e recorrem, rememoram, reescrevem.

Marina Abramovic – Self portrait with skeleton, 2003


[1] Por Leon Cakoff, Jornal da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo/SP, 17/05/2002, n° 93.

(*) Referências complementares (Sobre a bibliografia dessa Série, V. parte I) :

SAID, Edward W. Cultura e política. Tradução Luiz Bernardo Pericás. São Paulo: Boitempo, 2003.

V. Tb. http://ning.it/9J4dqJ, por Luiz Felipe Alencastro.

Filmografia:

BALKAN Baroque (filme/ performance de Marina Abravovic). Direção Pierre Coulibeuf. França/Holanda: Regards Production, 1998. 61 min., color., son., leg. Português. DVD.

DIA DO PERDÃO, O (filme). Direção Amos Gitaï. Israel/França, 2001, min., color., son., leg. português, VHS.

KEDMA (filme). Direção Amos Gitaï. Israel/França, 2002, 94 min., color., son., leg. português, VHS.

Série Retecituras IV: Guerras (Parte I)

15 mar

Por Gisèle Miranda

Marina Abramovic, The Family I (from the series of works the quiet in the Land), Laos, 2008

A temática adentra séculos e civilizações, remonta histórias de combatentes, libertadores, despóticos ou comuns; por motivos religiosos, políticos, econômicos, familiares ou banais; entre passado, presente e até de perspectivas futuras.

Esse múltiplo midiático e tecnológico que às vezes abunda em lixo (incluso trabalhos de pesquisa ‘fast’), também germina em possibilidades contemporâneas para lidar com o passado.

Nós podemos filtrar (não é censurar);  filtrar no melhor das textualidades do historiador Peter Burke,  sobre ‘empréstimos culturais’ e os ‘inevitáveis empréstimos culturais’, ou seja, diz respeito a utilização e a reutilização: reciclagem e lixo.

É por esse elo que chamo à escrita : Guerras (via periódicos e links). Obviamente contempladas às críticas e, por conseguinte, a busca da reflexão do leitor sobre as guerras atuais (pois há fases, incluso do pós conflito armado ou adjacente núcleos rebeldes vigorando).

Que tal pensarmos nos EUA, Afeganistão e Iraque, Israel e Palestinos?  O continente Africano em guerrilhas de diversas naturezas, enfim, toda essa constante que vem ´esbofetear´ a História Contemporânea com questões de difícil entendimento pela proximidade e fugacidade das informações. No entanto, reconheço nas artes uma boa temperatura para pensarmos a respeito – dado seu caráter experimental e de subjetividades inerentes.

Então, quais as razões para a guerra? [1]Ou, como viver junto? Claro que cada área há de se interrogar e pensar na melhor resposta dentro dos limítrofes informacionais e de tempo a reflexão.

A resposta dada a segunda questão foi vertida na 27ª Bienal de Artes de São Paulo, sob curadoria de Lisette Lagnado[2].

Foram artistas de várias partes do mundo com problemáticas diversas que se encontraram numa experimentação e numa tentativa de responder a indagação de ambas as perguntas e tantas outras insurgentes.

EUA, Afeganistão e Iraque

Em 2001 reuni três crianças entre 7 e 8 anos que montaram um roteiro para um vídeo caseiro, sob minha supervisão, para refletirmos sobre as guerras através de alguns entrevistados, pessoas que de alguma forma, viveram a guerra ou a sofreram indiretamente.

A ideia surgiu por conta da confusão informacional acerca da guerra entre EUA e Afeganistão. As imagens de TVs, o nome Osama Bin Laden, religiões, americanos, explosões, pareciam parte de jogos eletrônicos. Seria, então, um filme de ficção da indústria cinematográfica norte americana ? O que era tudo aquilo? Fatos ou jogos?

Com disse registrei de forma amadora, um interessante bate-papo entre as crianças com um jornalista (correspondente internacional) e cientista político (*).

-“Por que jogam bombas e comidas?”; “Por que matam crianças e pessoas que não querem a guerra?” ( encarte da Folha de S. Paulo – Folhinha, sobre o episódio de 11 de Setembro 2001, Afeganistão, e muitos outros pontos obscuros repensados) As crianças tudo vêm e tudo ouvem.  As manifestações pela Paz tiveram uma grande participação das crianças e companhia de seus pais e de muitos de seus professores. Esse aporte geracional compôs reações às crianças com relação à temática guerras.

‘Que mundo é esse?’ Era o título de capa em 2004. É um mundo que reage cada vez mais jovem. Que venham essas inquietações! E que elas sejam cada vez mais, para contrapor a falta de ‘reação’ dos mais velhos, sobre  os lugares em guerras, com fome, sede, miséria e doenças.

Marina Abramovic, The Family X (from the series of works the quiet in the Land), Laos, 2008

Uma das três crianças entrevistadoras é meu filho, hoje com 22 anos. A guerra no Afeganistão continua pelo trauma pós retirada de tropas vencedoras. Em paralelo, a guerra no Iraque estourou. E o mantenedor dessas duas guerras ganhou o Prêmio Nobel da Paz.

– “Por quê?” (1)

(*) Nome que prefiro deixar in off por conta da rigidez que há entre empresa e liberdade da palavra em outros ambientes.

[1] Questionamento que o geógrafo Wagner Costa Ribeiro (USP) coloca quando perguntado pelos alunos. No caso específico sobre EUA e Iraque, o geógrafo termina seu texto optando por reconhecer que o objetivo desta guerra é mostrar a capacidade militar dos EUA. No entanto, há nesse texto vencedores inesperados In: AGB Nacional, 7/4/2003: Entre a barbárie e a civilização.

[2] Bienal pioneira: pela primeira vez eletiva e eleita uma mulher; A 27 Bienal extrapolou o usual espaço projetado por Oscar Niemayer, deslocando algumas obras para espaços públicos (ruas, praças), facilitando o acesso para pessoas que jamais puderam comparecer em uma Bienal de artes, independente de ser gratuita, pois há vácuos históricos sobre cultura, educação.

Referências/Periódicos:

Folha de S. Paulo, 15 mar. 2003. Em dias decisivos para a solução do conflito entre Iraque e Estados Unidos, crianças que vivem e viveram em áreas de combate questionam a guerra e pedem paz. Folhinha, F1-6.

Folha de S. Paulo, 30 mar. 2003. Crianças no fogo cruzado: conflito do Iraque invade o mundo de meninos de até 4 anos e provoca dúvida, angústia e o temor de ver uma bomba cair no quarto. Cad. Mundo, A23.

Folha de S. Paulo, 20 jan. 2003. Arte do diálogo: exposição pela paz reúne palestinos e israelenses. Cad. Ilustrada, E8.

Folha de S. Paulo, 16 fev. 2003. Milhões vão às ruas contra a guerra/ Maior protesto da história pede paz. Cad. Mundo, A-15 a A21.

Folha de S. Paulo, 25 mar. 2003. Batalha por Bagdá. Cad. Especial: Ataque do Império, A13 a A22.

Folha de S. Paulo, 27 mar. 2003. Massacre em Bagdá. Cad. Especial: Ataque do Império, A13 a A24.

Folha de S. Paulo, 31 mar. 2003. Iraque anuncia que tem 4.000 mártires. Cad. Especial: Ataque do Império, A11 a A20.

Folha de S. Paulo, 31 mar. 2003. Homens na mira: jovens em Bagdá contam como é viver em uma cidade sob bombardeio. Folhateen.

Folha de S. Paulo, 25 mai. 2003. ‘Nós, o povo’, somos o verdadeiro inimigo (por Gore Vidal). Cad. Mundo: A24.

Folha de S. Paulo, 14 set. 2003. Arquiteturas da destruição: Em amém de Costa-Gravas mistura ficção e história para culpar, conscientizar e entreter (por Inácio Araújo). Cad. Ilustrada: E12.

Folha de S. Paulo, 4 set. 2004. Seqüestro na Rússia acaba em massacre de mais de 2000. Cad. Mundo, A13-16.

Folha de S. Paulo, 4 set. 2004. Traços da tristeza: Mostra em SP exibe desenhos de crianças prisioneiras durante a Segunda Guerra Mundial. Folhinha, F-3.

Folha de S. Paulo,11 set. 2004. Que mundo é este? Crianças de várias partes do planeta opinam sobre o terror, no terceiro aniversário dos ataques de 11 de setembro. Folhinha, F4-7.

Folha de S. Paulo, 28 ago. 2004. Futebol com as mãos: o pebolim foi inventado durante a Guerra Civil Espanhola para que as crianças feridas se divertissem. Folhinha, F4.

Folha de S. Paulo, 20 jan. 2006. Chega de exotismo no Oriente Médio, diz Gitaï. Cad. Ilustrada: E-8.

Folha de S. Paulo, 16 out. 2006. Ser moderno no século 21 é olhar para o passado: crítico e curador francês Nicolas Bourriaud fala à Folha sobre o conceito de “como viver junto”, tema da Bienal de SP. Cad. Ilustrada, E8.

Folha de S. Paulo, 22 fev. 2008. Sérvios queimam a Embaixada dos EUA: grupo de radicais tentam destruir edifício em resposta ao reconhecimento de Washington à independência de Kosovo. Cad. Mundo: A12.

O Estado de S. Paulo, 19 mar. 2008. Preciosidades que chegam do Chile: Mostra reúne parte do acervo do Museu da Solidariedade Salvador Allende, formado por doações de artistas do mundo todo. Cad. 2 – D3.

Folha de S. Paulo, 27 jul. 2008. O Mutante (por Slavoj Zizek). Cad. Mais! p.10.

Folha de S. Paulo, 17 ago. 2008. Por trás da miniguerra no Cáucaso, o xadrez geopolítico (por Immanuel Wallerstein). Cad. Mundo, A22.

Folha de S. Paulo, 24 ago. 2008.Um mundo desregrado: conflito entre Rússia e Geórgia marca a ascensão de relações multipolares perigosas, em que as potências testam umas as outras (por Slavoj zizek). Cad. Mais! p. 12.

Folha de S. Paulo, 17 set. 2008. Fundação Bienal diz apoiar curador. Cad. Ilustrada, E5.

Folha de S. Paulo, 27 set. 2008. Artista descobre relações de sua obra com favela. Cad. Ilustrada, E3.

Folha de S. Paulo, 28 set. 2008. Quase sem memória (por Peter Burke). Cad. Mais! p. 3.

Revista BRAVO! A arte à sombra do mal: Leni Riefenstahl. São Paulo: Editora Abril, 2001. Ano 4, n. 44, p. 26-37. (maio)

Revista BRAVO! GOYA. São Paulo: Editora Abril, 2007. Ano 10, n. 116, p. 26-37 (abril

Exposições:

“Arte e Sociedade: uma relação polêmica. São Paulo: Instituto Itaú Cultural, abr. a jun. 2003.

“Israel e Palestina: dois estados para dois povos”. São Paulo: SESC Pompéia – galpão, jul. e ago. 2003.

“Napoleão”. São Paulo: Museu de Arte Brasileira e Salão Cultural (MAB): Fundação Armando Alvares Penteado, ago. a nov. 2003.

“O desenho das crianças de Terezin”. São Paulo: Centro de Cultura Judaica, ago. a out. 2004.

“Sala Escura da Tortura”. Coletivo sobre as torturas na América Latina. Museu do Ceará, Fortaleza, 2005. Curadoria Edna Prometeu. Exposto a primeira vez no Museu de Arte Moderna de Paris, em 1973, com o nome “Sala Negra da Tortura”, seguindo para exposições na Itália, Suíça, Alemanha e Brasil. Veja neste Blog https://tecituras.wordpress.com/2010/09/19/historia-e-memoria-sob-tortura-%E2%80%9Csala-escura-da-tortura%E2%80%9D/

“Estéticas, sonhos e utopias dos artistas do mundo pela liberdade”. Parte do acervo do Museu da Solidariedade Salvador Allende”. São Paulo: Galeria de Arte do SESI (FIESP), mar. a jun. 2007. Curadoria de Emanuel Araújo. V. Tb. Neste blog: Manifesto de Gontran Guanaes Netto em virtude da participação de seu quadro ´La Prière’ https://tecituras.wordpress.com/2010/08/17/serie-retecituras-v-gontran-guanaes-netto-e-o-seu-manifesto-pelo-chile/

“Marina Abramovic: Transitory object for human use”. São Paulo: Galeria Brito Cimino, jun. e jul. 2008. (Sobre Marina Abramovic: Considerada a melhor performer em atividade, ela nasceu em Belgrado (Sérvia), ex-Iugoslávia, em 1946. Seu trabalho “explora a relação entre artista e público, os limites do corpo, as possibilidades da mente” – questões latentes da política internacional.)

“José de Quadros: Jogos de armar”. São Paulo: Museu Lasar Segall, ago. a nov. 2008. V.: https://tecituras.wordpress.com/2010/03/06/jose-de-quadros/

V. Tb. http://bit.ly/9xGzmU, por Luiz Felipe Alencastro.

Série Retecituras III: “Política Interna Dependente” – Fogo 451 aos doutores (de história)

11 mar

Por Gisèle Miranda

{para Heloisa Helena, minha mãe e Caio Graco, meu filho}

“A ilusão acalentada por aqueles que queimam livros é a de que podem cancelar a história e abolir o passado…  em 10 de maio de 1933, em Berlim… Paul Joseph Goelbbels discursou durante a queima de mais de 20 mil livros…  Freud, Steinbeck, Marx, Zola… Proust… Bertold Brech…”. (MANGUEL, 1997, p. 315-316)

Ou,

“No lugar onde se queimam livros, no fim se queimam homens (Heinrich Heine)


Atearam fogo aos doutores: mas eles sobrevivem, aqui, acolá ou em uma floresta dos homens-livros e livres, emprestada de FAHRENHEIT 451. Cenas ficcionais que Truffaut fez questão de dirigir a partir da incrível estória de Ray Bradbury, que se adéquam numa realidade cruel, deixando de ser ficção, tal qual a queima de doutores.[1]

Censores na queima de livros – cena do filme Fahrenheit 451

Mas até quando estaremos vivos? Em maio de 2007, quando recebi o texto protesto da historiadora Ana Gicelli Garcia Allanis, Dra. em História Social pela USP – publicado na Revista Caros Amigos (edição 120), a situação já estava alarmante. E o que foi feito?

Passei – assim como outros doutores- a ser alvo das fogueiras. Qual o nosso crime? Termos nos especializado, estudado, qualificado e conseguido o título de doutores para melhorarmos a educação de nosso país? Por continuarmos estudando, pesquisando, escrevendo? É duro sabermos da cafetinagem da educação.

Nos tornamos alvos mortais para as empresas educacionais pelo fato de sermos onerosos aos cofres da educação particular em detrimento da qualidade de ensino. Quantos professores doutores há nos cursos de graduação? Dependendo da época, o mínimo estabelecido pelo MEC.

Se perguntarmos aos estudantes de graduação quantos profissionais doutores há em seu curso, a resposta vem em coro: quase nenhum.

Quanto as universidades públicas há obrigatoriedade da titulação. O problema está no número de vagas. Em geral uma vaga por curso. É um investimento exaustivo intelectual e financeiro.

Também há, os colegas que estão iniciando uma especialização ou mestrado que são o básico da mão de obra nas universidades particulares mas, se continuarem seus estudos estarão todos desempregados?

Há dois anos era comum sugerirem aos doutores que escondessem sua qualificação ao se colocarem como candidatos a vagas de professores universitários. Hoje, há agentes do fogo 451 para verificarem no Curriculum Lattes CNPq se de fato o candidato a professor não está escondendo ser um doutor, ou seja, um banido, um condenado ao fogo 451.

Que doutor vai esconder do CNPq Lattes uma formação qualificada, de experiência educacional, do exercício do pensamento, da escrita, a voz, a postura de anos pesquisando e sendo financiado por CNPq, CAPES, FAPESP?

Recordo uma frase de uma distinta professora da PUC/SP ao parabenizar-me pela trajetória que me fez doutora: “Você é uma doutora pela PUC/SP”. Senti o peso das atividades de anos após minha graduação, ligados às pesquisas, escrita, leituras; atividades que continuam no meu universo como pensadora.

Após dez anos da titulação ‘doutora’ e de práticas alternativas de sobrevivência, fui uma foragida. Vivi em florestas educando informalmente, mas perseguida pelo fogo 451: “Até quando a mídia, o MEC e os tecnocratas vomitadores de estatísticas vão fingir que está tudo bem? Quem deve ser processado e responsabilizado por toda essa esbórnia? Que país queremos?” [2]



[1] O filme FAHRENHEIT 451 é de 1966. O livro foi publicado em 1953. 451 é a temperatura celsius utilizada pelos censores para queimarem os livros.

[2] Ana Gicelli Garcia Allanis em sua frase final no texto “Tiro ao Doutor”, maio 2007.  Revista Caros Amigos. V. tb. “Título atrapalha professor doutor nas universidades particulares“:http://www.adur-rj.org.br/5com/pop-up/titulo_atrapalha_prof_univ_particulares.htm

O que mudou de 2000 a 2016? 

Série Retecituras II: Marcas – mulher, mãe, prostituta e armas de guerra

8 mar

Por Gisèle Miranda

(À memória de Sabine Spielrein)


“… o pensamento é uma espécie de cartografia conceitual cuja matéria-prima são as marcas e que funciona como universo de referência dos modos de existência que vamos criando, figuras de um devir. (…) escrever é traçar um devir. Escrever é esculpir com palavras a matéria-prima do tempo…(…) a escrita enquanto instrumento do pensamento, tem o poder de penetrar nestas marcas, anular seu veneno, e nos fazer recuperar nossa potência. ” ROLNIK, Suely, 1993.


E. Nery para Gisèle Miranda, “Quadros no Museu”, 1988.

Teodora em 527 d.C ao casar com Justiniano tornou-se Imperatriz e deixou de vez a prostituição. Em cerimônia pós morte recebeu o título de Santidade pela igreja Ortodoxa.

A Pop Art de Andy Warhol perpetuou o ícone de Marilyn Monroe by wold, aquém do ‘happy birthday to you president’.

Mulheres que oscilaram entre o limbo ao luxo. Do luxo a morte. Outras são contemporâneas à nossa existência, anônimas que estão marcadas entre o silêncio e o medo.

O documentário de Lisa Jackson de 2007, The greatest silence: rape in the Congo, também fala das marcas; as próprias e as de outras mulheres.

Lisa há uns 20 anos foi estuprada por três homens na saída de seu trabalho. O antídoto que encontrou para tratar o seu veneno foi –  falar – e fazer com que outras vítimas falassem com apoio terapêutico. As marcas de todas elas são mostradas à consciência de quem assiste: o que é ser mulher em pleno século 21?

O que há na República Democrática do Congo que os soldados estupradores de Ruanda tanto almejam? E sob comando de quem?  O ouro, a prata, o petróleo são velhas cobiças. E as mulheres?

Em 1880, foram os belgas os donos da extração. De 1960 até os anos de 1990, anos de ditadura da etnia Mobutu. Posteriormente, as guerrilhas no comando alternado. Há no Congo, 80% das reservas de Coltan – mineral usado para celulares e laptops.

Por contingências das guerras foram registrados mais de 200 mil casos de estupros – 30% com contágio de HIV. São resultados de parcerias de um hospital e grupos independentes. O hospital foi criado em 1999, com verbas humanitárias. Desde então, o hospital sobrevive com lotação máxima de casos sérios de mutilações, ou seja, estupros seguidos de mutilações. Casos de escravização com crianças de 4 a 9 anos de idade e que passaram por violência sexual. As crianças em sua grande maioria são filhas de estupros. 80% das mulheres não têm escolarização.

Pátrias famílias, religiões e preconceitos…” (1) de idade, credo, opção sexual, formação intelectual, que transpôs o século 19, com tantos literatos, poetas, filósofos que reinaram no Positivismo (aquém do Romantismo): em geral  sob a delimitação à potência da mulher. Ao longo dos tempos, os movimentos dos mais variados focaram uma ascensão e uma atenção à mulher.

O século 21 ainda é repleto de adjetivos a interpelar a liberdade feminina: mãe, esposa, filha, prostituta…. há subterfúgios em cada função, enfim, uma série que se renomeia a cada situação em um cordão de ‘pátrias famílias, religiões e preconceitos’. Um tipo de cegueira facilmente observável em nosso entorno.

Freud quando criou a psicanálise rompeu com uma gama de preceitos para lidar e tratar a psiquê. Vanguarda na época. Libertário, conceitos e mais conceitos. Sexualidades feminina e masculina em questão. Entre os seus discípulos esteve Carl Jung que tempos depois rompeu com alguns desses conceitos e práticas de análise. Seu ponto era contrapor o cerne de Freud, ou seja, a sexualidade como referência básica. (2)

Jung tratou entre muitos pacientes uma mulher, judia e sem critérios lúcidos para o diálogo. Ele a tratou. Ela saiu de sua longa internação, estudou medicina e especializou-se em psiquiatria, aplicando em seu exercício de trabalho técnicas para suas atividades terapêuticas em sua clínica para crianças, a ‘Creche Branca’ (3)

Freud sugeriu o fim desse amor. Afinal, Jung era casado e sua amante era ex paciente e  nessa época, sua futura colega de profissão. Ela não deixou de escrever a Jung. Ele envelheceu e deixou uma obra sobre suas atividades. Ela, em tempos stalinista acabou sendo entregue à milícia nazista e foi assassinada.

As marcas são diferentes e há crepúsculos geracionais. Tempos marcados sendo mulher.

Eu, que os enveredei às minhas palavras, às minhas tentativas de criar antídotos aos venenos de minhas marcas, e de não deixar adoecer minha consciência, não vou esquiva-los de saber quem sou. Uma mulher. A mulher dos “Quadros no Museu”.

“No pedante espaço

do salão sem fim,

Quadros e Quadros

penduravam-se isolados

pelo imenso espaço solene.

Perdidos, expostos,

longe dos seus colóquios,

de tempos juntos, no aconchêgo familiar

do estúdio que os pariu.

Ficaram sós, nús, frágeis.

E, então,

uma Mulher chegou.

Quieta, anônima, pequena,

sensível, grande, vibrante.

E, na sua emocionalidade,

Ela os aconchegou,

com o calor de sua emocionalidade,

do seu humanismo sensível.

Os Quadros tranquilizaram.

Gisele os reuniu.

Porque os sentiu.”

(E. Nery, MASP, 1988.)

E. Nery para Gisele Miranda, “Quadros no Museu”, 1988.

Notas:

(1) “Pátrias famílias, religiões e preconceitos…” letra da música de Antonio Cícero e Marina Lima.  Ela canta que Pátrias famílias, religiões e preconceitos quebraram…” – apesar de gostar muito da letra, não acredito que os preconceitos foram quebrados. Um delicioso sonho para o futuro.

(2) JUNG, C.G. (1875-1961) Memórias, sonhos, reflexões. Compilação e prefácio de Aniela Jaffé. (prefácio à edição brasileira de León Bonaventure). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1975. 1a Ed. Inglesa 1961. Apenas um exemplo: “No que concerne o conteúdo do recalque eu não concordava com Freud…. ele apontava o trauma sexual, e eu achava isso insatisfatório… ele não quis admitir como causa qualquer outro fator que não fosse a sexualidade…” p. 134. “Tenho ainda uma viva lembrança de Freud me dizendo: ‘Meu caro Jung, prometa-me nunca abandonar a teoria sexual… olha, devemos fazer dela um dogma, um baluarte inabalável…”  p. 136.

(3) Sabine Spielrein foi a primeira paciente de Jung. Sugestão fílmica que conta essa história verídica: Jornada da Alma. Dir. Robero Faenza. Itália/França/Inglaterra, 2003. color., son., leg. em português. V. Tb. Um Método Perigoso. Dir. David Cronenberg. Reino Unido, Alemanha, Canadá, Suiça, 20111. http://www.youtube.com/watch?v=SmU0oL0Iswc

(*) Sobre o artista E. Nery (1931-2003): Emmanuel Nery – filho de Aldalgisa e Ismael Nery. Foi aluno de Candido Portinari, Alberto Guignard, De Chirico, Salvador Dalí, Diego Rivera, Clemente Orozco, Frida Kahlo e Norman Rochwell. V. neste blog a Série Emmanuel Nery ;

Sobre o desenho e o texto de Emmanuel Nery acima: ambos realizados no MASP e no livro: NERY, Emmanuel. Forças Contrastantes. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

Sugestão:

NERY, Emmanuel. Couraça da Alma. Rio de Janeiro: Editora Expressão e Cultura, 1996.

Série Retecituras I: José De Quadros

6 mar

Por Gisèle Miranda

 

Kreuzottern (víboras), 54 x 45 cm Jornal: Völkischer Beobachter, 25 de agosto de 1938. Manchete: ´O almirante von Horthy em Berlim´ (esse almirante foi o grande líder do fascismo húngaro)

Tem eco! Dor insuportável! Seis milhões de pessoas abatidas. Os pestilentos eram os algozes, pragas dizimadoras; nada perecíveis às pestes do medievo e, mais ávidos de terror no Terceiro Reich.

Jogos de Armar é um herdeiro documental do pré-nazismo do auge e decadência da Segunda Guerra Mundial. (1939-1945 – na Alemanha)

Os jornais de 1932 a 1944, eram ditados e manipulados a cultuação da suástica na comunicação e em técnicas aprimoradas  e de valores atuais.

José de Quadros ou Jogos de Armar tira o leitor de agora de sua confortável passagem. Há um convite à “uma mesa de dissecação, um gabinete de taxidermia ou uma aula de ontomologia do Führer” (catálogo); mexe com as estruturas, instiga a reflexão, remete um tempo que precisa sempre ser tocado numa plasticidade necessária.

Os jornais sobreviveram também ao incêndio criminoso no ateliê do artista José de Quadros, em Kassel, na Alemanha. Por isso, vai sempre ser um tema recorrente e retecido para partimos do conceito de humanidade.

Além dos jornais, sobreviveram algumas traças. Sobreviventes e alastrantes, as traças foram minuciosamente incorporadas por José de Quadros `a uma consciência das tragédias causadas pela intolerância’.

Jogos de Armar de José de Quadros nos jogam às arm(a)ções de mortes, intervindo artística e politicamente sobre os documentos históricos. As pragas existem, subliminar e criminosamente em pleno século 21.

Tema que recorre. Tema que corrói. Tema pertinente. Tema de Le Chagrin e La pieté, de Marcel Olphüs, de 1969. Um documentário que resgatou a década de 1940, o período da ocupação alemã na França.

Em Shoah, de Claude Lanzmann, de 1985, a morte é anunciada na estação de Treblinka, parada rápida antes do pouco tempo de vida no campo de extermínio. O gesto pontuado do maquinista é a ‘degola’ seguido do sorriso insano.

 

Goldläuferkäfer (escaravelhos dourados), 54 x 45 cm Jornal: Völkischer Beobachter, 28 de setembro de 1937. Manchete: ´Berlim presta homenagem ao Duce e ao Führer – o desfile triunfal na capital do reich em festa.´

Em contrapartida ao sorriso antissemita, o destaque do tempo interrompido violado no horror, na barbárie.

A voz do menino que cantava, historicizado e  poupado da morte anunciada, serviu de deleite aos nazistas e nas lembranças dos que o ouviam do outro lado do rio, na Polônia, entre vida e morte.  Já adulto, a voz refez o caminho cantando; face infantilizada, sorriso ruborizado – ele – independente da temporalidade gritante, ainda era o mesmo menino.

O trabalho de José de Quadros  – com seus vermes, pragas, ou seja, um bestiário e seu acervo documental – transformou-se em marca artística contra os crimes da humanidade.

 

Hirschkäfer, 54 x 89,8 cm Jornal: Jornal: Völkischer Beobachter, 29 de setembro de 1937. Manchete: ´O Duce no Karinhall. O Duce e o Führer falam ao mundo. ´

 

 

 

* Os jornais de época foram ‘tratados’ pelo artista com resina acrílica e os desenhos foram feitos de sépia e sangüínea.

 

Referências:

Exposição José de Quadros – ‘Jogos de Armar’ esteve no Museu Lasar Segall, Curadoria de Jorge Schwartz e Marcelo Monzani de 23 ago. a 23 nov. 2008, e de 28 nov. 2008 a 18 fev. 2009, no Museu de Arte de Ribeirão Preto.

Sobre o artista José de Quadros: http://www.josedequadros.com

Curso de cinema ministrado pelo prof. Dr. Eduardo Victorio Morettin (ECA/USP) na Cinemateca Brasileira (nov./dez. 2008): Marcel Olphüs, Na era das catástrofes – do nazismo e Shoah (documentário), 1969 e 1985.

No Brasil, o Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da USP (2012) vem discutindo sobre os estupros seguidos de morte durante a Segunda Guerra Mundial – “no sofrimento das mulheres durante o Holocausto” (cerca de dois milhões), até então tema ocultado no genocídio de judeus.

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