Arquivo | Política RSS feed for this section

Série Retorno V: O Realismo de Courbet

15 nov

por Gisèle Miranda

 

Jean Désiré Gustav COURBET (1819-1877) veio de uma família rural bem estabelecida. Iniciou Direito como um filho comportado mas abandonou o sonho do pai para estudar desenho de maneira independente e condizente ao seu Realismo – da construção do discurso e da prática.

Em suas andanças pelo Museu do Louvre ficou fascinado pelo Barroco Laico de Frans  Hals (1580-1666), Rembrandt (1606-1669), Rubens (1577-1640), entre outros. E se curvou ao retratista do Barroco Religioso espanhol, Diego Velazquez (1599-1669).

Este slideshow necessita de JavaScript.

Empenhado como a estética Realista e a causa popular, Courbet foi descaracterizando-se do rapaz bem trajado do autorretrato com cachorro preto (1841) ao andarilho em Bonjour Monsieur Courbet (1854).

Nesse processo visível de embrutecimento físico e de sensibilidade com os menos favorecidos, Courbet manteve boas relações de Daumier (1808-1879), Proudhon (1809-1865), Champfleury (1821-1889), Baudelaire (1821-1867), Mallarmé (1842-1898).

Mesmo com radicalismo em prol dos trabalhadores, Courbet manteve laços com pensadores distantes da vertente popular, tal como Baudelaire – que na pintura O atelier do pintor de 1855, encontra-se do lado direito da tela lendo ou flanando.

Baudelaire, que pertencia à geração de Courbet e por ele foi pintado duas vezes ainda estava ligado à visão aristocrática e desprezava o realismo; fala frequentemente da diferença entre Delacroix que era uma mente soberana e universal… (Schapiro, 1996, 118)

Courbet se diferenciou do Realismo de Delacroix (1789-1863) por volta de 1848 ao posicionar-se a favor da Comuna Francesa e por assinar ilustrações populares. Delacroix ilustrou Shakespeare e Goethe evitando panfletagem e mantendo-se revolucionário em 1830, mas contra revolucionário em 1848, muito embora a obra A liberdade Guiando o povo, seja de fato o maior ícone da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Com Daumier, Courbet assumiu uma parceria artística e política através dos desenhos e de pinturas de populares, charges em jornais não consideradas como arte e pejorativamente chamada de  primitiva e considerada vulgar.

A pintura de Courbet foi anticlerical e tinha uma técnica de trabalho peculiar a Caravaggio (1571-1610) – o uso da faca na pintura – embora o mote não tivesse a duplicidade aliada à segurança ou intempéries. Também fazia uso do polegar e irritava os críticos da metade do século 19 com o grande tamanho de sua assinatura, o tamanho e a energia de suas telas…considerados provocação para os críticos conservadores. (Schapiro, 1996, 124-125)

Courbet sempre acreditou na força da pintura e conseguiu romper com a dramaticidade vazia do objeto; para ele o artista não precisava gostar da obra. Procurou na realidade de seu tempo as contradições, mas sem a idealização estética.

 

Referências:

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Anúncios

As “experiências” de Julio LE PARC (Mendoza, 1928-)

2 jun

por Gisèle Miranda

A Arte Cinética tem algumas ciladas quanto a sua proposta, o que é natural se pensarmos que suas primeiras experiências foram cunhadas de alguns movimentos de vanguarda, historicamente entrincheirados entre as duas grandes guerras mundiais.

Uma outra questão aureolar é o movimento real da obra e não a representação do movimento; por isso nem toda obra que se mexe é cinética. A exemplo do Futurismo (1909)  que até tem feixes que parecem se encaixar como cinético, ou que de alguma maneira as palavras confundem no manifesto, mas destoam quando aproximadas. Obviamente o contexto geopolítico do Futurismo foi tenso com o fascismo italiano de Mussolini e do comunismo russo de Stalin ou, – de Marinetti a Maiakóvski.

Ou mesmo, o germe do Manifesto Realístico (1920) dos irmãos Gabo e Pevsner pinçado em suas experiências técnicas valorizadas, mas superadas. Na Arte OP dos anos de 1950, o efeito cinético aparece quando o espectador parado sente que a arte se move. Tecnicamente não é arte cinética.

O efeito escultura através da luz de László Moholy-Nagy (teórica em parceria com Alfred Kemeny, em 1922) fecundou a arte cinética da qual Le Parc compraz, mas com o efeito de 38 anos de diferença até a criação do GRAV – Groupe de Recherche d´Art Visuel, 1960, dos quais foram partícipes Garcia-Rossi, Morellet, Sobrino, Stein Yvaral e Le Parc. Ou seja, previa-se a parceria ativa “por forças que se desenvolvem por iniciativa própria” (In: Stangos, 153) mas não a abdicação do ego em prol da parceria que resultaria na Obra ou melhor, nas Experiências alquímicas de Le Parc.

As experiências foram observadas à luz de temporalidades e apreensões técnicas justapostas. Da importância do movimento do ar através dos móbiles de Alexander Calder nos anos de 1950 em meio a fabricação de brinquedos onde resgatou e ampliou discussão com aspecto lúdico, da fonte de energia natural e com as cores de Mondrian e Miró.

Nesse acúmulo de experiências em estruturas metamorfoses foram criadas intervenções vibratórias, a energia (seja natural ou não), do pictórico ao escultural de Soto, Cruz-Diez, Liliane Lijn, Martha Boto, entre outros, a  Le Parc com sua premissa da Luz – seus efeitos às parcerias desconhecidas.

São vieses que obviamente compõem leituras do que já foram questões associativas: para o que realmente se quer associar ou diferenciar, e só então criar o conceito do GRAV que primou pela interferência e, dentro da esfera de Le Parc conjuga a Experiência (1) do artista que cede espaço para a criação em fluxos intensos de interferências singulares que, aí sim, compõem a experiência de algo esperado (a imagem surge com o movimento e esse movimento cria uma forma no espaço) e as variantes inesperadas sob efeito da Luz aos corpos que se inserem.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Nota:

(1) É de conhecimento público que o artista Julio Le Parc prefere designar seus trabalhos de Experiências (ou Alquimias) e não Obras.

(*) Nas fotos as alunas do curso de Artes Visuais da Universidade Estadual de Maringá / Bienal de Curitiba 2015/2016. Museu Oscar Niemeyer.

(**) Um pouco mais sobre Le Parc: tornou-se cidadão de dupla nacionalidade franco-argentina em função de suas atividades políticas; desterrou-se para sobreviver a ditadura militar da Argentina. Em 1964 recusou-se a participar da Bienal de Artes de São Paulo em protesto ao golpe militar no Brasil.  Em 1966 foi premiado na Bienal de Veneza. Junto com Gontran Netto fez parte da Brigada Internacional Antifascistas (1972-1987); Criou a série “Sala Escura da Tortura”, em conjunto com Gontran Netto, Alejandro Marco e Jose Gamarra, partindo de depoimentos de torturados da América Latina em final da década de 1970.

 

Referências:

ARGAN, G. C. (1909-1992) Arte Moderna. Trad. Denise Bottmann e Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

GULLAR, F. Relâmpagos – dizer o ver. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

STANGOS, N. (Org.) Conceitos da Arte Moderna. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1991.

Teleconferência dos artistas Julio Le Parc e Gontran Guanaes Netto, março de 2016 Paris/ Maringá – Universidade Estadual de Maringá/NEAD, sob coordenação de Gisèle Miranda e participação de alunos do 4º ano de Artes Visuais.

Site do artista Julio Le Parc

Bienal Internacional de Curitiba  3/10/2015 a 14/02/2016 no Museu Oscar Niemeyer – Le Parc foi o artista homenageado Bienal, Luz do Mundo, curadoria geral de Teixeira Coelho.

Da 31ª Bienal de São Paulo: “Como (…) coisas que não existem” a “29 de abril de 2015”

24 jun

por Gisèle Miranda

 

O tema da 31ª Bienal de São Paulo (2014-2015) “Como (pegar, nomear, viver, pensar…)  coisas que não existem” –   com os verbos no infinitivo e com reticências “ é uma invocação poética do potencial da arte e de sua capacidade de agir e intervir em locais e comunidades onde ela se manifesta” . Então como existir no silêncio, no tropeço, nas camuflagens da ignorância, no esquecimento, desinteresse em prol de um futuro vazio produzido pela arrogância?

O escocês Charles Esche assinou uma curadoria que não agradou muito ao público brasileiro ao propor: pensar… nomear, imaginar, viver, lutar, recordar, conhecer, refletir. Houve associação crítica com o Dadaísmo (1916) sobre a estética da Bienal, mas em vista que a história não se repete, diria que a inspiração Dadaísta partiu do confronto, outrora a arte questionando valores de uma burguesia fascista e em guerra, e hoje, arte, memória e história com  uma classe média (brasileira), digna de ser nomeada como “uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante.” (Marilena Chauí, 2013 In:Cult, 182, p.10)

O Brasil da classe média atiçada a ‘bater panelas’ quando tem o que comer, atacar a mulher de maneira machista à misógina e pedir intervenção militar quando desconhece a violência, nada mais resultante que a Educação desse mesmo país, seja representada por cenas de horror em “29 de abril de 2015”. Os professores (e a grande maioria professoras) em manifestação pacífica foram alvos de policiais, balas e bombas. É claro que o passado ignorado tornou-se um monstro em diferentes esferas numa catarse de escombros.

29 de abril de 2015 no Centro Cívico, Curitiba, Paraná, Brasil, sob o governo de Beto Richa.

29 de abril de 2015 no Centro Cívico, Curitiba, Paraná, Brasil.

Há questões que precisam ser nomeadas a partir de uma discussão sobre o passado. O que Esche mostrou na  31ª Bienal foi o passo da virada contemporânea em diálogo com o passado ignorado seguido do ” 29 de abril de 2015″.

A 31ª Bienal de São Paulo reportou a população do Brasil aos países vizinhos e a outros mais distantes, que hoje são cutucados em seu passado de violência, pobreza, marginalização as adaptações da fugacidade contemporânea, e nesse momento são percebidos enormes vácuos.

Juan Carlos Romero, Violência, 1973-1977 (impressão sobre papel)

Juan Carlos Romero, Violência, 1973-1977 (impressão sobre papel)

Palmas para Esche por esse elo tecido pela história e pelas memórias coletivas entre a 1ª Bienal de Veneza (1895) à 1ª Bienal de São Paulo (1951), e as edições instigantes e necessárias Bienais em diversos países.

A 56ª Bienal de Veneza (2015), sob curadoria do nigeriano Okwui Enwezor com a temática “Todos os futuros do mundo”, incide sobre a desigualdade de oportunidades. Enwezor é o primeiro negro a assumir a Bienal de Veneza. Cabe lembrar que a Nigéria recentemente criminalizou a “mutilação genital feminina”, pratica que, segundo a UNICEF, atingiu 125 milhões de meninas em quase 30 países do continente africano.

 

Alguns temas e obras discutidos na 31ª Bienal:

Apelo (2014), de Clara Ianni e Débora Maria da Silva. O Vídeo “convoca ao vivos para recordar os mortos… confrontando o esquecimento”. O local da discussão é o Cemitério Dom Bosco, “criado em 1971 pelo governo militar para receber cadáveres de vítimas do regime repressor…”. O mesmo local, hoje, absorve as “vítimas das ações conduzidas pelos esquadrões da morte da Polícia Militar de São Paulo”. Débora Maria da Silva é uma das mães que “perderam seus filhos devido a violência policial” (Guia 31ª Bienal, p. 40-41). Associado a isso está a luta contra a redução da maioridade penal.

Clara Iannni e Débora Maria da Silva, Apelo, 2014. Estudo para filme.

Clara Iannni e Débora Maria da Silva, Apelo, 2014. Estudo para filme.

AfroUFO (2014), de Tiago Borges e Yonamine. Um óvni de um futuro incerto que pousou no Brasil todo pichado ou do “pixo”. O contato estético e a intervenção no espaço interno nos reporta a uma “história colonial comum”. Nossa relação vital com o continente Africano, com séculos de escravidão à uma liberdade que hoje contempla também o discurso sobre a redução da maioridade penal e o perfil das superlotações nos presídios.

Tiago Borges e Yonamine: AfroUFO, 2014.  (local interno da nave)

Tiago Borges e Yonamine: AfroUFO, 2014. (local interno da nave)

Coletivo Mujeres Creando, “fundado em La Paz em 1992… constituindo por prostitutas, poetas, jornalistas, vendedoras de mercado, trabalhadoras domésticas, artistas, costureiras, professoras…” O coletivo é atuante em performance, instalações propiciando debate público a “ditadura do patriarcado sobre o corpo da mulher… porque não há nada mais parecido com um machista de direita que um machista de esquerda” (Catálogo 31ª Bienal, p. 35) Atrelada às discussões da autonomia do próprio corpo estão índices altíssimos de problemas decorrentes de abortos realizados na clandestinidade, porque nos países da América do Sul o aborto é ilegal e penalizado. O “sexismo e o patriarcado institucionalizado” vêm aumentando o número de casos de estupros nas grandes cidades. O silêncio, a vergonha e o medo não são computados, embora o índice seja crescente.

Mujeres Creando - útero ilegal, 2014. (série 13 horas de rebelión) Instalação de escultura e vídeo.

Mujeres Creando – útero ilegal, 2014. (série 13 horas de rebelión) Instalação de escultura e vídeo.

Também com Giuseppe Campuzano (1969-2013) quando em 2004 criou o Museo Travesti del Peru; Sergio Zevallos e suas discussões sobre andrógenos, transgêneros e travestis “um conjunto de corpos no qual ´há´ privação de sua condição humana, não por registro e vigilância, mas pelo silêncio e apagamento de seus rastros.” (Catálogo 31ª Bienal, p. 242)

Giuseppe Campuzano, Carnet, 2011. Fotografias para documento de identidade.

Giuseppe Campuzano, Carnet, 2011. Fotografias para documento de identidade.

UEINZZ grupo cênico que prioriza “experimentações estéticas minoritárias por “um bando de: quaisquer-frageis-filósofos-terapeutas-esquizos-e-outros-poetas…” (Catalogo 31ª Bienal, p. 229). Entre os atores da Cia. está o filósofo Peter Pál Pérbart da PUC SP, ativo na luta pela Cátedra Foucault. Em 2012 ao expressar oposição artística contra uma nomeação ao cargo de reitora, esteve entre os três docentes listados a expulsão causando comoção acadêmica e por fim, arquivamento do processo de expulsão. No entanto, o caso de manifestação artística desembocou em 2015 com um processo a “Zé Celso Martinez Corrêa e sua trupe dionisíaca” pela encenação no dia da manifestação.

Éder Oliveira com suas pinturas enormes de “jovens delinquentes” ou apenas garotos, menores de idade que estão à margem da sociedade. O perfil desses jovens tem muito da nossa história de séculos de violência e de abandono “caboclos com traços de índios e negros” (Guia 31ª Bienal, p. 147). Aliás, a temática violência aparece em um todo da Bienal, mortes prematuras de crianças por esquadrões da morte, ditaduras militares que assassinaram jovens manifestantes aos desaparecimentos. Violência impregnada nas ruas, nas canções, nos vídeos como do turco Halil Altindere como o seu Wondeland (2013), dos cartazes do argentino Juan Carlos  Romero com  Violência (1973-1977).

Éder Oliveira, sem título - intervenção urbana, 2013.

Éder Oliveira, sem título – intervenção urbana, 2013.

Entre tantas obras e tantos coletivos, o artista argentino León Ferrari (1920-2012) e sua parceria de quinze anos com o coletivo de Buenos Aires, Etcétera, criado em 1997. A obra de León “Palavras Alheias: conversas de Deus com alguns homens e de alguns homens com alguns homens e com Deus” de 1967, vem do combatente artista (Ateu) que empunhou suas mãos à criação de obras que denunciassem responsabilidades, principalmente da igreja católica em momentos históricos da Argentina. O elo entre o artista renomado e o coletivo vem do conhecimento do passado à obra contemporânea Errar de Dios.

León Ferrari e Coletivo Etcétera, 2014.

León Ferrari e Coletivo Etcétera, 2014.

Referências:

31ª Bienal (Catálogo e Guia), Como (…) coisas que não existem, 2014.

Blog do IMS, por Carla Rodrigues http://www.blogdoims.com.br/ims/profissao-professor-proanacao-carla-rodrigues

Paraná 247, por Mário Sérgio Cortella http://migre.me/qqRR7

Revista CULT junho 2015, n. 202, ano 18. O Terrorismo poético, Peter Pál Pelbart por Heitor Ferraz, p. 10-15.

Revista CULT, agosto 2013, ano 16, n. 182. Pela responsabilidade intelectual e política, Marilena Chauí por Juvenal Savian Filho.

Lembrar-me de esquecer-te (KANT)

11 mar

 

por Byra Dorneles

(Co-autorias: Byra Dorneles, Miguel Stavele & Robhison Crusoe. Direção: Miguel Stavele)

 

 

 

 

Aos berros ele corria pela praça Parobé. Não se sabia ao certo quem ele queria atingir mas no topo vinha a sociedade civil higienizada e a sua família, principalmente os caras das ruas, que tomam conta dos carros e vendem bagulhos malhados tentaram se intrometer.

Mas a questão era familiar e secular e os caras que vendem bagulho sarapa não tem moral nem valentia contra os insanos, os bêbados loucos da praça Parobé.

Minha covardia incompreensível me impedia de entender o todo tanta revolta espelhada e espalhada na minha cara… por fim, virei tudo aquilo que ele dizia mas nunca fui… virei tudo aquilo que ele dizia, que ele queria que eu fosse mas eu nunca fui: vitima, objeto de irracionalismo, a fragmentação da família ali, na praça Parobé e todos otários metidos a malandros parados pensando no ataque na praça Parobé.

Ele não sabia que homem algum chegou a ser realmente o que queria ou então ser completamente ele mesmo, mas, ali na praça Parobé aos gritos não era o local ideal pra se discutir isso levando assim, consigo, atitudes de um mundo primitivo.

E foi principalmente por não querer gritar as vezes grito no meu quarto porque não tenho radio e canto minhas canções. Alguma coisa dentro de mim dizia algo sem palavras por isso me calei deixando que a situação familiar se abatesse mais uma vez sobre mim espesso como um tijolo.

Ele não sabia que primeiro teria que se entender como homem, interpretar-se (na praça Parobé) somente a si mesmo e assim depois entenderia uns & outros.

Feito kant anotei na minha agenda: “lembrar-me de esquecer-te”.

“Ah esse obsessão de chegar… o terror de não vir a ser o que se pensa”.

Série Ficcional H. Miller, XXII, parte I: tudo ou nada

3 mar

por Lia Mirror & Laila Lizmann 

 

 

…volte para casa e pense…. Vá antes que eu lhe mate!

Voltei-me imediatamente e parti rumo à porta. Necessitei de tôda a coragem para não romper em uma corrida. (H. MILLER, Nexus, 1968, p. 170)

Véspera de tempo outonal em pleno verão. As mãos ficaram trêmulas e a voz embargada pela resposta que veio sobre absolutamente tudo ao mesmo tempo. Não ousaria dizer: talvez  sob tortura.

Tremi depois de observar o entorno: todos estavam acolhidos, em pares, em ímpares e até crianças correndo lá e cá, mas ninguém estava sozinho. Caíram as moedas do meu bolso furado, depois os exames e em seguida, a água esparramou pelo chão como uma explosão estelar de braços, pernas, muitos peitos e um cachimbo no canto esquerdo – que não é um cachimbo, diriam Magritte e Foucault.

Emmanuel Nery, Fêmea completa, 1988,  acrílico sobre tela (55 x 46 cm) Coleção P. M. Bardi, SP.

Emmanuel Nery, Fêmea completa, 1988, acrílico sobre tela (55 x 46 cm) Coleção P. M. Bardi, SP.

Fui chamada.  Pensei: e se H. Miller for o doutor ? Mas não era.  No taciturno doutor a dessemelhança da foto do sorridente filho, entre os outros filhos.

Vi um servo do oficio enquanto atendia as ligações; a secretária que entrou repentinamente. Nesse exato momento apareceram as iniciais em seu punho esquerdo: HM. Do punho saltaram duas exasperantes dores em meu peito. Bravamente não deixei transparecer.

Entre as interferências externas ele fazia perguntas rápidas e formais ao pronto encaminhamento: “- Pode ser tudo ou nada. Eu prefiro assim porque existe a dúvida. “

Sempre vi na dúvida uma posição a ser tomada. Como a direita e a esquerda por uma liberdade consciente mesmo que esta esteja em construção, pois onde há raízes da violência não há ética. Onde há abominação política projeta-se o fascismo. (CHAUÍ, M. In: CULT, 2014, 42-52)

Será uma tomada de posição cognitiva se opondo ao vazio do pensamento, independente do lado. (Harendt, 1999).

 

 

Referências:

ARENDT, H. Eichmman em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

CHAUÍ, M. In: Revista CULT, Edição Especial Grandes Entrevistas, n. 1, ano 17, 2014, pg. 42-52

MILLER, Henry. Nexus. Rio de Janeiro: Record, 1968. 

Sobre o artista Emmanuel Nery (E. NERY): V. neste blog a Série Emmanuel Nery

Movimento Realista, parte I

10 jan

 por Gisèle Miranda

O Movimento Realista na França tem seu enfoque histórico na primeira metade do século 19, movido pelas grandes revoluções do século 18, valorizado em parte pelo Romantismo Histórico (*) que floresceu pelo vetor literário, da música, da pintura e do teatro. Também foi fruto da crise do Neoclassicismo nas primeiras décadas do século 19 e findou com as perdas do movimento operário à entrada dos movimentos de vanguarda.

O século 19 foi Positivista nos territórios de controle jurídico e médico, mas inseriu o Romantismo Histórico de Victor Hugo (1802-1885), Dostoiévski (1821-1881), entre outros, e interferiu no Realismo de Delacroix (1798-1863) e Courbet (1819-1877) ao resgatarem os populares e as presenças de mulheres nos processos de lutas e transformações. Vide a famosa Marianne na obra de Delacroix, A Liberdade guiando o povo, de 1830, reinventada no Realismo Político do pintor brasileiro Gontran Guanaes Netto em 1989, nos 200 anos da Revolução Francesa.

Delacroix, a liberdade guiando o povo, 1830

Eugène Delacroix (1798-1863), A Liberdade Guiando o Povo, 1830. Óleo sobre tela, 2,6 x 3,25. Museu do Louvre.

A mulher partícipe dos Direitos Humanos a partir de 1789 vem das ruas, do povo, do público e não dos retratos de nobres, rainhas. Mesmo não sendo obras pintadas por mulheres houve destaque de suas participações

Gontran-Guanaes-Netto, 1989 A liberdade guianando o povo, 1989.

Gontran Guanaes Netto (1933-), A liberdade Guiando o Povo, 1989. Óleo sobre madeira, 2,0 x 2,0. Estação do Metrô Marechal Deodoro/ SP.

No Brasil, o Romantismo foi disseminado em meados do século 19 na literatura e no teatro de renomados à uma clandestinidade própria de cultura popular. No âmbito do teatro foi na mudança dos atores negros escravizados que se mascaravam de brancos, por ser um ofício pouco valorizado. Vieram companhias importantes como de Sarah Bernhardt (1844-1923) e Eleonora Duse (1858-1924) que se apresentaram em francês e Italiano nas altas rodas da Monarquia à República, ou seja apresentações quase particulares. E quando aberto ao grande público:

Um grande teatro… murmúrios ininterruptos na platéia e nos camarotes, do princípio ao fim da peça… sem falar nas dificuldades da lingua italiana, ao lado dêsse português tão rude, e do brasileiro ainda pior… (Eleonora Duse. IN:Abreu, 1958, 14)

De meados do século 19 às duas primeiras décadas do século 20, a mudança de alunos Neoclassicistas e do Academicismo Histórico as transformações dos caipiras, dos violeiros e dos picadores de fumo à virada da Semana de Arte de 1922, em que o Movimento Modernista assumiu elementos dos movimentos de vanguarda e agregou aos valores culturais brasileiros, um vetor nacional (antropofágico) e internacional vanguardista.

O Realismo ligado ao movimento operário no Brasil ecoou na década de 1930, a especificidade do nome Di Cavalcanti (1933), embora o nome de Lívio Abramo anteceda com suas gravuras de militância e preocupação social:

É ele o primeiro artista, ao que se saiba, a transpor para xilo o tema da luta de classe: o operário na fábrica, o operário coletivamente em protesto, a velha fábrica de tecidos com o seu perfil recortado, grades e chaminés erectas como uma infantaria em face do inimigo e em volta… o casario operário, em grupos…como troços emboscados de assaltantes (guerrilheiros)… (In: Amaral, 2003, 33; 38)** 

Logo, Portinari despontou em meio aos operários, camponeses e anti fascistas aglutinados à Aliança Libertadora Nacional de 1935, e tornou-se o pintor histórico do Brasil do século 20 (Amaral, 2003, 60). A psiquiatra Nise da Silveira (correspondente de Carl Yung) em seu trabalho: a filosofia e realidade social adentrou o experiementalismo junto a pacientes psiquiátricos com interferências importantes nas artes visuais. No México o Muralismo de Rivera, Orozco e Siqueiros.

 

 

 

(*)Final do século 18 e início do século 19, o Romantismo histórico aconteceu na pintura e na ressurreição Gótica ou Neo Gótico (verticalização das igrejas; a primeira fase Gótica se deu entre os séculos 13 e 15). O Romantismo deu sinais de seus esgotamento em meados do século 19.

Romantismo tem uma face demasiadamente histórico-filosófico via tese de doutorado de Walter Benjamin (1917-1919) – a partir dos pensadores Novalis e os irmãos Schelegel-  ascendeu a discussão sobre ´cartografia dos conceitos´, através do Romantismo Alemão – tais como: ´aura´, ´modernidade´, ´reminiscência,, ´reflexão´ (via conexão e não continuidade) entre outros. A primeira fase desse Romantismo: entre ´a religião e a revolução´, ´crítica e crítico´, ´idéia e ideal´, ´prosa e poesia´. Tb. – ´obra inacabada´-, ou seja, ´ o devir´; conceito conduzido com traquejo neste século pelos filósofos Deleuze & Guattari.

Na perspectiva histórica do Romantismo encontram-se também: autonomia das nações; povos com suas realidades geográficas, históricas, religiosas e lingüísticas; experiência vivida e à genialidade artística. No Brasil dos 1800, há forte influência dos trabalhos de Goya, Delacroix, Turner, Rodin sobre a arte de Araújo Porto Alegre, Rugendas e August Miller.

Cabe a sugestão fílmica: François Truffaut –´A história de Adèle H´ (1975), sobre a vida e a morte – o amor que vagueia na insanidade. Adèle era a filha mais nova de literato Romântico Victor Hugo. Truffaut, brilhantemente roteirizou em parceria (a partir do diário de Adèle) e, dirigiu essa película, desde a sua concepção artística literária a composição cenográfica da época (1863). Adèle Hugo é vivida pela  (sempre) bela atriz francesa Isabelle Adjani.

V. também: NAPOLEÃO (filme/ IV partes/ produção HBO), sob direção de Yves Simoneau. França, 2002, 369 min. Atores de primeira linha: Christian Clavier, notável Napoleão, a sempre bela Isabella Rossellini como Josephinnne, além dos grandes Gerard DepardieuJohn Malkovich, entre outros.

Dos séculos antecedentes ao Romantismo Histórico, ou seja, 17 e 18. Ver ARGAN 1992: as divisões dos conceitos Clássico X Romântico. Incluso Romântico no Medievo, do Românico ao Gótico e no Barroco-  em oposição ao Clássico e Neoclássico.

(**) Sugestão da Exposição: Livio Abramo, Insurgência e Lirismo na Biblioteca Mário de Andrade/SP de 7 dezembro 2016 à 12 março 2017. Curadoria e Pequeno Guia de Leitura por Paulo Herkenhoff (Org.) e Leno Veras.

Referências:

AMARAL, Aracy. Arte para que? São Paulo: Nobel/ Itaú Cultural, 2003

ABREU, B. Eleonora Duse no Rio de Janeiro (1885-1907) Rio de Janeiro: MEC, SNT, 1958.

BURKE, Peter. (Org.) A Escrita da história: novas perspectivas. Tradução Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Paulista, 1992.

GONTRAN Guanaes Netto (entrevistas-vídeo a Gisele Miranda): 04, 11 e 18/12/2002; 12/02/2003; 15/01/2003; 15/03/2003; 07/01/2005; 24/04/2005; 08/06/2006.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) Sobre história. Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2 ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (coleção Repertórios)

Justiça de Transição no Brasil: dimensões conceituais e relevância histórica articulados entre a História e o Direito. (Parte II)

8 jan

por Jozy Lima

O que é Justiça de Transição?

O termo justiça de transição indica uma distinção entre a ideia de justiça, de modo geral, e a especificidade político-jurídica do conceito contida no termo transição. Nesse sentido, Torelly aponta que:

A ideia de “justiça” presente no termo difere daquela apresentada em conceituações abstratas de justiça, como, por exemplo, uma concepção rawlsiana (Rawls, 2002), uma vez que o ponto de partida é eminentemente concreto e contingente, de tal feita que o conhecimento do processo genealógico da ideia de justiça de transição importa para a localização histórica de seus conteúdos, fontes de normatividade e referenciais no direito positivado, uma vez que os casos concretos de transições é que modularam, no tempo, o próprio escopo do conceito.(ALMEIDA; TORELLY. 2010, p. 39)

Portanto, o conceito vincula-se aos processos históricos de transição de ditaduras para regimes pós-ditatoriais. A origem, o termo é atribuído aos estudos de Ruti Teitel. Ela é a co-presidente-fundadora da Sociedade Americana de Direito Internacional – Grupo de Estudo em Justiça de Transição e Estado de Direito. Nos estudos sobre justiça de transição suas análises são referências essenciais, embora permaneçam sem tradução no Brasil. Por isso, as citações adiante foram extraídas dos estudos brasileiros que mencionam suas contribuições, entre eles o de Cecília Macdowell Santos. Pesquisadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal e Professora da Universityof San Francisco, Estados Unidos, a autora, quanto a origem do termo, afirma:

O termo transitional justice (justiça de transição) foi cunhado pela professora de direito Ruti Teitel em 1991, referindo-se aos processos de transformação política e jurídica nos contextos de transições para as “novas democracias” na América Latina e na Europa do Leste. Teitel (2000) propõe uma abordagem indutiva, construtivista e contextualizada da justiça de transição.[…] Em sua genealogia da justiça de transição desde o final da II Guerra Mundial, Teitel (2003) identifica três fases: a primeira, que é marcada pelos Tribunais de Nuremberg, criou importantes precedentes jurídicos, mas foi sui generis. A segunda fase refere-se às transições para a democracia na América Latina e à queda do comunismo no bloco soviético a partir dos anos 1980. Esta fase caracterizou-se pela democratização combinada com algumas medidas de transição e a privatização da economia, deixando-se a cargo da iniciativa individual a litigância. A terceira e atual fase caracteriza-se pela normalização e globalização do paradigma de justiça de transição, com um consenso em torno da necessidade de se lidar com o passado. (SANTOS, 2010, p.129)

Assim, as peculiaridades históricas de cada sociedade influencia no tipo de justiça de transição que irá emergir, ou seja, no modo como o passado será enquadrado, nas diversas instâncias do Estado e da sociedade. Entretanto, em termos gerais, quanto a América Latina, algumas semelhanças são apontadas: 

A sucessão de regimes repressivos e autoritários, ditatoriais e/ou totalitários que avassalaram a América Latina, entre meados dos anos 60 e 80, ainda não foi tratada de forma sistemática por nenhum regime democrático em processo de afirmação do continente. Isso se justifica, de uma parte porque todas as transições políticas para a democracia foram feitas sob compromisso. De outra porque a democracia expandiu-se mais como “forma” do que como “substância”. Na verdade, nenhum dos regimes de fato foi derrotado ou derrubado por movimentos revolucionários de caráter popular; logo, os valores que sustentaram as ditaduras ainda são aceitos como “razoáveis” para a época da guerra fria, e também face às “barbáries também cometidas pelos resistentes de esquerda”. (GENRO, 2010, p.18)

Gontran Guanaes Netto,  autoretrato, 1954-1964;  recorte fotográfico em P&B, 1980

Gontran Guanaes Netto, autoretrato, 1954-1964; recorte fotográfico em P&B, 1980

Justiça de transição, portanto, não é um modelo ou tratado a ser cumprido. É produto de experiências históricas de cada país quanto aos caminhos trilhados para lidar com o legado dos regimes autoritários. Cabe ressaltar que no meio acadêmico e jurídico o interesse pelo tema é recente, como revela o estudo que resultou numa dissertação de Mestrado em Direito, pela Universidade de Brasília. O autor aponta a novidade do assunto em âmbito acadêmico:

A ausência de estudos teóricos e empíricos aprofundados sobre a justiça de transição no Brasil faz prevalecerem análises primárias que apenas repercutem um senso comum baseado em dois diagnósticos: o primeiro, de que o processo de acerto de contas (“accountability”) do estado brasileiro com o passado priorizou apenas o dever de reparar, valendo- se de um parâmetro reparatório baseado em critérios de eminente natureza trabalhista que seria impertinente e, um segundo, de que a ideia de “anistia” que, em sentido etimológico significa esquecimento, deturparia as medidas justransicionais do Estado brasileiro pois em última análise faria o país viver um processo transicional que procura esquecer o passado, e não superá-lo. (ABRÃO; TORELLY, 2010, p. 29) 

Gontran Guanaes Netto, autoretrato,1968-1969; recorte fotográfico em P&B, 1980

Gontran Guanaes Netto, autoretrato,1968-1969; recorte fotográfico em P&;B, 1980

No campo das pesquisas acadêmicas novos arquivos indicam que há muito por fazer. Vide recente notícia sobre os trabalhos coordenados pelo professor James Green, da Brown University e pelo professor Sidnei Munhoz, da Universidade Estadual de Maringá, com a participação de estudantes. De acordo com a publicação “até agosto, a equipe estará instalada no National Archives & Record Administration (Nara), College Park II, Maryland, nas proximidades de Washington, onde a maior parte dos documentos oficiais do Estado está guardada nos Estados Unidos.” Ainda de acordo com o Professor Munhoz da Universidade Estadual de Maringá:

A primeira contribuição é auxiliar na pesquisa e na busca do conhecimento histórico em um período tão marcante como foi a ditadura militar. Em segundo lugar, é preciso destacar a importância social de nosso projeto. Isso porque, até o fim do ano, queremos disponibilizar tudo o que foi reunido digitalizado na internet. Qualquer pessoa no Brasil ou fora dele terá acesso ao material.

Gontran Guanaes Netto, autoretrato, 1972; recorte fotográfico em P&B, 1980

Gontran Guanaes Netto, autoretrato,1971- 1972; recorte fotográfico em P&B, 1980

Ressalte-se que, em termos de justiça de transição, as dimensões jurídicas e históricas se encontram também no direito à memória, entre outros. Entre os direitos que englobam o tema, Roberta Camineiro Baggio, Professora Doutora da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Uberlândia e Conselheira da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Baggio acentua que:

A concepção de justiça de transição tem sido consolidada ao longo das últimas décadas, principalmente sob o ponto de vista acadêmico, tendo atingido uma conformação normativa muito recente no cenário internacional, especialmente após as decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos, a instituição do Tribunal Penal Internacional e o relatório do secretário-geral da ONU sobre a temática, apresentado ao Conselho de Segurança. Ainda que o termo justiça de transição possa causar controvérsias, não há muitas dúvidas sobre as dimensões englobadas pelos debates instigados até hoje por esse tema, sendo possível dividi-las em quatro: o direito à memória e à verdade, o direito à reparação das vítimas, a responsabilização dos agentes perpetradores das violações aos direitos humanos e a readequação democrática das instituições que possibilitaram os abusos de poder.(BAGGIO, 2010 p.269).

No citado relatório do secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, intitulado O Estado de Direito e a justiça de transição em sociedades em conflito ou pós-conflito, produzido em 2004, indica-se as perspectivas jurídicas e políticas que envolvem a questão do legado de violações dos regimes autoritários:

A noção de “justiça de transição” discutida no presente relatório compreende o conjunto de processos e mecanismos associados às tentativas da sociedade em chegar a um acordo quanto ao grande legado de abusos cometidos no passado, a fim de assegurar que os responsáveis prestem contas de seus atos, que seja feita a justiça e se conquiste a reconciliação. Tais mecanismos podem ser judiciais e extrajudiciais, com diferentes níveis de envolvimento internacional (ou nenhum), bem como abarcar o juízo de processos individuais, reparações, busca da verdade, reforma institucional, investigação de antecedentes, a destituição de um cargo ou a combinação de todos esses procedimentos (ANNAN, 2009, p.325)

Contribuem à compreensão do tema as análises que discutem o entrelaçamento jurídico e político que perpassam as experiências de justiça de transição, sobretudo, quanto às estruturas de poder que sustentavam o regime anterior e remanescem no regime posterior. Diante da questão o estudo de Cecília Macdowell Santos, pontua que:

[…] a concepção de justiça de transição apresenta algumas limitações teóricas e analíticas. Uma das questões a ser problematizada refere-se à maneira como se pensa a relação entre o direito e a política. Ao contrário do argumento de Teitel, no sentido de que o direito está mais influenciado pelo contexto político nos momentos de transição, os estudos críticos do direito mostram que o direito e a política estão intimamente ligados em qualquer contexto político. Os processos criminais que tramitaram na Justiça Militar brasileira, entre março de 1964 e abril de 1979, estavam tão influenciados pelo contexto político repressivo daquele momento quanto a Lei de Anistia de 1979 foi moldada pelo contexto político da chamada “abertura lenta, gradual e segura”. No mesmo sentido, as recentes ações declaratórias contra torturadores, ajuizadas por ex-presos políticos e seus familiares, também são influenciadas pelo contexto político que atualmente se considera “democrático” e que é marcado pela globalização dos direitos humanos e do paradigma de justiça de transição. (SANTOS, 2010, p.131)

Outro aspecto fundamental que permeia os estudos diz respeito aos obstáculos que impedem os avanços das medidas de justiça de transição. Nesse sentido, lida-se com as consequências de determinada concepção de anistia que sustentou a transição da ditadura ao regime pós-ditadura, por meio da Lei de Anistia, no modo como foi interpretada e consolidada:

O principal obstáculo à consecução da regularização das funções da justiça pós-autoritarismo é produto da persistência histórica de uma interpretação dada pela própria ditadura à lei de anistia de 1979, pretensamente vista como uma “anistia bilateral” que camufla uma auto-anistia, e pela omissão judicial em promover sua adequada, íntegra e coerente interpretação, sob a luz dos princípios constitucionais democráticos e dos tratados e convenções internacionais em matéria de direitos humanos. Nesse sentido veio a realização da Audiência Pública “Os limites e possibilidades para a responsabilização jurídica de agentes públicos que cometeram crimes contra a humanidade durante períodos de exceção” promovida pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça em 31 de julho de 2008, que expôs oficialmente a controvérsia jurídica relevante acerca desta auto-anistia aos atos cometidos pelos agentes de Estado envolvidos na prática sistemática de tortura e desaparecimento forçado como meios de investigação e repressão. (ABRÃO; TORELLY, 2010 p.36)

Após a Audiência Pública, promovida pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, sobre as possibilidades de responsabilização criminal por fatos tipificados como crime praticados por agentes públicos durante 1964-1985, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, ingressou no Supremo Tribunal Federal, com uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, onde questionou o § 1º do Art. 1º da Lei de Anistia. A ADPF foi julgada improcedente por sete votos a dois, ou seja, foi mantida a interpretação da Lei de Anistia tal qual sustentou o status quo dos agentes públicos e da elite política no pós-ditadura.

Gontran Guanaes Netto,  1975;  recorte fotográfico em P&B, 1980

Gontran Guanaes Netto, 1975; recorte fotográfico em P&B, 1980

Referências:  Justiça de Transição no Brasil: dimensões conceituais e relevância histórica articulados entre a História e o Direito (Parte I)

Sobre o artista Gontran Guanaes Netto: V. Dados Biográficos de Gontran Guanaes Netto

Justiça de Transição no Brasil: dimensões conceituais e relevância histórica articulados entre a História e o Direito (Parte I)

8 jan

por Jozy Lima

 

Os crimes da ditadura, os tempos da ditadura e a história da ditadura brasileira do período 1964/1985 são objetos de estudos historiográficos. São também, componentes das memórias daqueles que resistiram, daqueles que apoiaram e dos que atuaram como  torturadores, na condição de agentes públicos, em nome do Estado. A questão da tortura como política de Estado é uma discussão necessária, independente de sua apreciação pelo Poder Judiciário. Entretanto, questionamentos jurídicos e políticos acerca dos crimes praticados, por agentes públicos, na vigência do Estado de exceção retornaram à cena histórica, em âmbito jurídico, por meio de uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, impetrada pela Ordem dos Advogados do Brasil, em 2008. A ADPF 153 foi julgada improcedente em outubro de 2010. Votou-se, no Supremo Tribunal Federal, pela manutenção do status quo da impunidade.

Trabalho coletivo: Gontran Guanaes Netto, Julio Le Parc, Alejandro Marco, Jose Gamarra, 1973. Gontran Guanaes Netto:

Sala Escura da Tortura, trabalho coletivo: de  Gontran Guanaes Netto, Julio Le Parc, Alejandro Marco, Jose Gamarra, 1973. Gontran Guanaes Netto: “Ao realizarmos a Sala Escura pensamos em dar uma modesta contribuição em uma exposição limitada no tempo. Hoje nos sentimos surpresos diante do fato de nosso impulso coletivo ter se transformado em símbolo das realidades de uma época de violências arbitrarias movidas pelo poder do Estado.”, 2012.

Dúvidas sobre a constitucionalidade da Lei nº 6.683/1979 – conhecida como Lei de Anistia – colocou na pauta do Judiciário a questão da anistia aos perpetradores de crimes contra os opositores e resistentes à ditadura militar. É fato que a possibilidade de punição em relação a determinados crimes da ditadura está em questão e ensejou o ingresso de quatro ações penais pelo Ministério Público, das quais, três foram aceitas pelo poder judiciário. Também, tramita na Câmara dos Deputados um projeto de lei para alcançar penalmente os agentes públicos que perpetraram violações aos direitos humanos.

A Lei Federal 6.683/1979 – Lei de Anistia, gestada na Casa Civil da Presidência da República, sob o comando do General Golbery do Couto e Silva e votada no Congresso Nacional em 1979, é objeto de questionamento jurídico e político sobre a impunidade decorrente de sua aplicação. Depois de passados quase 30 anos, o Supremo Tribunal Federal foi solicitado a dar uma interpretação, conforme a Constituição de 1988, ao dispositivo da Lei de Anistia.

Em 2008, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil ingressou no Supremo Tribunal Federal, com uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental. No documento, questionou-se a Lei de Anistia. Foi solicitado ao STF “a sua adequada interpretação quanto a não abrangência, desde o tempo da sua edição, para os crimes dos agentes torturadores”. A ADPF 153 foi julgada improcedente em outubro de 2010. Em novembro 2010, o Brasil foi condenado perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos, no caso Gomes Lund e outros (“Guerrilha do Araguaia”) a “conduzir eficazmente, perante a jurisdição ordinária, a investigação penal dos fatos do presente caso a fim de esclarecê-los, determinar as correspondentes responsabilidades penais e aplicar efetivamente as sanções e consequências que a lei preveja[…]”

De um lado, a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental impetrada pela OAB e a sentença do caso Gomes Lund reacenderam o debate jurídico e político sobre a responsabilização criminal dos agentes públicos quanto aos atos praticados durante o regime autoritário, assim como, sobre o conjunto de medidas configuradas como justiça de transição. Por outro lado, também impuseram a necessidade de revisitar a historiografia e discutir determinadas interpretações sobre os fatos históricos que legitimam decisões jurídicas.

 

 

Sobre o artista Gontran Guanaes Netto: Dados Biográficos de Gontran Guanaes Netto

 

Referências:

ABRÃO, PAULO; TORELLY, MARCELO D. Justiça de Transição no Brasil: a dimensão da Reparação. In: Repressão e Memória Política no Contexto Ibero-Brasileiro: estudos sobre Brasil, Guatemala, Moçambique, Peru e Portugal. Brasília: Ministério da Justiça, Comissão de Anistia; Portugal: Universidade de Coimbra, Centro de Estudos Sociais, 2010. Disponível em <http://www.memoriasreveladas.arquivo nacional.gov.br/media Repre_Memoria_pdf> Acesso em 24/06/2012.

________________ As dimensões da Justiça de Transição no Brasil, a eficácia da Lei de Anistia e as alternativas para a verdade e a justiça In: A anistia na era da responsabilização: o Brasil em perspectiva internacional e comparada. Brasília: Ministério da Justiça, Comissão de Anistia; Oxford: Oxford University, Latin American Centre, 2011. Disponível em <http://srvweb.uece.br/labvida/dmdocuments/a_anistia_na_era_da_responsabilizacao.pdf#page=215.> Acesso em 25/01/2013.

________________Mutações do Conceito de Anistia na Justiça de Transição Brasileira: a terceira fase da luta pela anistia. In: Revista da Anistia Política e Justiça de Transição, N. 7 (jan. / jun. 2012). – Brasília : Ministério da Justiça , 2012b.

ACUNHA, Fernando José Gonçalves; BENVINDO. Juliano Zaiden. Juiz e Historiador, Direito e História: uma análise crítico hermenêutica da interpretação do STF sobre a Lei de Anistia. In: Revista NEJ – Eletrônica, Vol. 17 – n. 2 – p. 185-205 / mai-ago 2012 Disponível em: www.univali.br/periodicos. Acesso em 20/05/2013

ALMEIDA, E. TORELLY M.. Justiça de Transição, Estado de Direito e Democracia Constitucional: estudo preliminar sobre o papel dos direitos decorrentes da transição política para a efetivação do Estado Democrático de Direito. Sistema Penal & Violência, Porto Alegre, 2, mar. 2011. Disponível em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/sistemapenaleviolencia/article/view/8111/6041. Acesso em: 15 Mar. 2013.

ANNAN, Kofi . O Estado de Direito e a justiça de transição em sociedades em conflito ou pós-conflito. Relatório S/2004/616 apresentado ao Conselho de Segurança da ONU em 23.08.04. In: Revista da Anistia Política e Justiça de Transição, nº. 01, pp. 320-51, Brasília, jan/jun, 2009. p. 325. Disponível em: < http://www.memoriasreveladas. arquivonacional.gov.br/media/ Repre_Memoria _pdf> Acesso em 24/06/2012

BAGGIO, Roberta Camineiro. Justiça de Transição como Reconhecimento: limites e possibilidades do processo brasileiro In: Repressão e Memória Política no Contexto Ibero-Brasileiro: estudos sobre Brasil, Guatemala, Moçambique, Peru e Portugal. Brasília: Ministério da Justiça, Comissão de Anistia; Portugal: Universidade de Coimbra, Centro de Estudos Sociais, 2010. p 260-286. Disponível em: <http://www.memoriasreveladas. arquivonacional. gov.br/media Repre_Memoria_pdf> Acesso em 22/03/2012

BRASIL. Lei n. 6.683, de 28 de agosto de 1979. Concede anistia e dá outras providências. Diário Oficial da União [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 28 ago. 1979. Disponível em: <http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/>. Acesso em: 17 fev. 2012.

CONSELHO FEDERAL DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL. Petição incial. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 153. Disponível em <www.stf.jus.br/portal/geral/verPdfpaginado.asp?id=330654.> Acesso em 21/05/2013.

CORTEIDH – Corte Interamericana de Derechos Humanos. Caso Gomes Lund y otros (Guerrilha do Araguaia) vs. Brasil: excepciones preliminares, fondo, reparaciones y costas: sentencia de 24 de noviembre de 2010. Serie C. n. 219. Disponível em: <http://www.corteidh.or.cr/casos.cfm>. Acesso em: 17/04/2012.

MEYER, E.P.N. Ditadura e Responsabilização: elementos para uma justiça de transição no Brasil. Belo Horizonte: Arraes Editores, 2012.

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Relatório preliminar de atos de persecução penal desenvolvidos pelo MPF acerca de graves violações de direitos humanos cometidas por agentes do Estado durante a ditadura. Disponível em http://noticias.pgr.mpf.mp.br/noticias Acesso em 19/07/2013.

PEREIRA, Anthony W. Ditadura e Repressão: o autoritarismo e o estado de direito no Brasil, no Chile e na Argentina. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

PIRES JÚNIOR, Paulo Abrão. O alcance da Lei de Anistia: O último passo. In: Seminário Internacional Sobre Justiça Internacional Penal, 2010, São Paulo. Palestra. Disponível em: <http://portal.mj.gov.br/main.asp?Team= 2AD759EF-DCFB-46EB-A16C-73502B9C09EF>. Acesso em: 20 mai. 2013.

SANTOS, C. M. Memória na Justiça: A mobilização dos direitos humanos e a construção da memória da ditadura no Brasil. In: Revista Crítica de Ciências Sociais, 88. 2010, p. 127-154 Disponível em: < http://rccs.revues.org/1719; DOI 10.4000/rccs.1719.> Acesso em 08/06/2013.

SILVA FILHO, J. C. M. O Julgamento da ADPF 153 pelo Supremo Tribunal Federal e a Inacabada Transição Democrática Brasileira. Disponível em: < http://idejust.files.wordpress.com/2010/07/adpf153zk2.pdf >

30ª Bienal de São Paulo: Os fios tecidos de Arthur Bispo do Rosário

21 set

por Gisèle Miranda

 

A Bienal se reencontrou com as obras de Arthur Bispo do Rosário e desta vez sob curadoria de Luis Pérez-Oramas.

Pérez-Oramas foi incisivo em sua “iminência das poéticas” e nas vozes diferenciadas que ecoam. Esse é o elo, o fio de Bispo (outrora de Ariadne) que fia e desfia na arquitetura de Oscar Niemeyer. Se Babel, labirinto ou oceano, as vozes apresentam-se  em um “ensaio polifônico”.

Em meio a isto, Bispo surpreende. Foi alvo da limpeza social da época, escapou da lobotomia e conviveu sob preconceitos, mesmo que isso não tivesse claro para ele. Melhor assim, bastavam as vozes de sua esquizofrenia já que as vozes do Estado e da sociedade só o discriminavam.

Superação com sentidos variados incluso pela perspectiva-escrita de Rodrigo Naves quando relacionou a vida de Bispo (e de muitos outros artistas) às dificuldades gritantes de nossos atletas, visto pelo histórico e os recentes jogos Olímpicos e Paralímpicos. Disse ele:

Um país tão permeado por desigualdades como o Brasil produziu um sem-número de artistas e atletas – acho interessante aproximá-los de origem pobre que encontram um modo de superar as adversidades sociais por meio e maneiras muito diferentes de expressão. Se a injustiça social não encontrou entre nós – ao menos até os anos 80 – uma resposta política efetiva, parece fora de questão que artisticamente nosso meio cultural seria muito menos rico sem a contribuição daqueles que teriam tudo para permanecer silenciosamente à margem. [1]

De fato essa correlação é muito oportuna. Alguns superam “a margem” quase como um milagre. Para o descrente, a revolta e a certeza que muitos ficaram no caminho sem volta.

Arthur Bispo do Rosário

A 30ª Bienal foi tomada pelo fio e desfio de Bispo do Rosário – o des- A- fio de suas vestimentas, das palavras bordadas e alinhavadas aos pensamentos. Bispo é nosso Oceano Atlântico. Nele Bas Jan Ader continua vivo no encanto performático e mítico de seu desaparecimento. [3]

O oceano Atlântico que expurgou o marinheiro-artista Bispo do Rosário é o mesmo que sugou o artista-marinheiro Bas Jan Ader – se nos atermos sobre “a falha, a queda, o risco… e a finitude da vida”[2] – elementos intrínsecos a curadoria sem estrelismos de Pérez-Oramas; “clean” para a maioria crítica, mas com a consciência histórica das Bienais desde 1951 às oscilações da 29º Bienal em meio às controvérsias da”pichação e do vazio”. (*)

Neste oceano há fios, redes conectados à arte têxtil de Sheila Hicks, “rejeitando os limites tradicionais que separam a arte, artesanato e design”, seduzida pelos cantos inebriantes da “tecelagem das Américas do Sul e Central”[4].

Michel Aubry também içado pelos fios costurou “mobílias, instrumentos, tecidos…” como mantos históricos e com seus “sintomas políticos e sociais ”[5]. Em um dos mantos  – “sobretudo” – Aubry imprime traças à visão de tragédias e intolerâncias de um passado recente e numa taxidermia com linhas e agulhas.

Bispo alinhavou com outros artistas, cortou, fez e desfez no “risco” de Bas Jan Ader à preponderância das texturas, dos tecidos e tons, visibilidades geracionais em consonância a identidade e a coletividade através das fotografias de Hans Eijkelboon, na moda dos anos de 70 e 80 do Studio 3Z , de August Sander, entre os 111 artistas desta 30ª Bienal de São Paulo.

Muitos tecidos, muitas costuras, muitas experiências; muitas linhas e agulhas. Por quê? – Há uma amplitude e complexidade do tema. [6]

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

 

Notas:

(*) V. Bienais de Arte de São Paulo: Salve, Basquiat

(1) Rodrigo Naves. Na criação de Arthur Bispo do Rosário a palavra adquire novas realidades. In O Estado de S. Paulo. 2014.

[2] Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo: A iminência das poéticas / curadores Luis Pérez-Oramas  {et al.}. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2012, p. 110

[3] Bas Jan Ader desapareceu “no oceano Atlântico ao tentar atravessá-lo com minúsculo veleiro enquanto realizava a segunda parte de um tríptico chamado In Search of the Miraculous”. In: Catálogo da 30ª Bienal, 2012, p. 110-111.

[4] In: Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo, 2012, p. 279.

[5]  In: Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo, 2012, p. 228-229.

[6] Walter Zanini em 10 de fevereiro de 2010 – na apresentação do Livro de: COSTA, Cacilda Teixeira da. Roupa de artista – o vestuário na obra de arte. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: EDUSP, 2009.

Outras referências:

ARTHUR Bispo do Rosário. Emanuel Araújo {et. AL} Organizador e curador Wilson Lázaro. Rio de Janeiro: Réptil, 2012.

BOUCHER, François (1885-1966) História do vestuário no Ocidente: das origens aos nossos dias. São Paulo: Cosac & Naify, 2010.

Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo: A iminência das poéticas / curadores Luis Pérez-Oramas  {et al.}. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2012

DANTAS, Marta. Arthur Bispo do Rosário: a poética do delírio. São Paulo: UNESP, 2009.

HIDALGO, Luciana. Arthur Bispo do Rosário: o senhor do labirinto. Rio de Janeiro: ROCCO, 2011.

Grito do Silêncio

24 ago

Por Gontran Guanes Netto

Nesta sala obscura e silenciosa um grito repercute na consciência.

Ao penetrarmos em uma caverna pré-histórica uma grande emoção nos invade diante das pinturas, marca indelével de humanidade. Outras marcas através dos tempos deixaram testemunhos diversos desta presença humana. A capela Sistina nos energiza de calor humano. Através da pintura Guernica será eternizada uma testemunha da violência exterminadora.

Ao realizarmos a Sala Escura pensamos dar uma modesta contribuição em uma exposição limitada no seu tempo. Hoje nos sentimos surpresos diante do fato de nosso impulso coletivo ter se transformado em símbolo das realidades de uma época de violências arbitrarias movidas pelo poder do Estado.

Sala Escura da Tortura, trabalho coletivo: Gontran Guanaes Netto, Julio Le Parc, Alejandro Marco, Jose Gamarra, 1973

Atualmente nada nos move ao apropriarmos desta sala, mas estamos convencidos do que ela representa na apropriação de todas as consciências não omissas, motivando- as a darem uma contribuição concreta para que seja admitida a necessidade de punição exemplar para definitivamente extirpar este vírus maligno.

Não podemos de nenhuma forma aceitar omissões, justificativas que isentem responsáveis das aberrações cometidas. Esta sala silenciosa será símbolo permanente de cobrança de justiça e pesa como memória silenciosa e duradoura.

http://salaescuradatortura.com.br/

%d blogueiros gostam disto: